A luta de Deus e o Diabo na terra do açaí

Reproduzo, por engraçado e jornalístico, o relato que o repórter Carlos Mendes me encaminhou acerca da primeira aparição de Inri de Indaial em Belém do Pará, em 1982. Na época, acompanhei pelos jornais a saga do malandro Inri, incluindo sua barulhenta prisão. Mendes conta aqui um episódio hilário, que eu desconhecia.

Por Carlos Mendes

Lendo no DIÁRIO de hoje (domingo), a entrevista do folclórico Inri de Indaial, ou Inri Cristo, como queiram, deparei-me com algumas considerações do entrevistado que não revelam tudo o que aconteceu durante a curta e agitada passagem dele pela cidade das Mangueiras, em fevereiro de 1982. Principalmente a escaramuça que houve na Praça Dom Pedro II, onde Inri e Fernando Lúcio Miranda, o “Fernando Arara”, travaram uma guerra de ofensas que quase resvala para as chamadas vias de fato.  

Inri- Divulgacao (1)Deixa eu contar essa estória aqui por mim testemunhada. Eu era frequentador da casa de Fernando Arara, ali na Frei Gil de Vila Nova, atrás do antigo Consulado Americano, na Praça da República, onde ele morava com a mãe, a escritora Lindanor Celina ( quando ela vinha passar férias em Belém, porque morava e lecionava literatura portuguesa em Paris). No dia em que o Fernando Arara, mente tão genial e privilegiada quanto louca (se é que as duas coisas não se fundem e completam), soube que o Inri Cristo estava em Belém e era vedete do programa do Eloy Santos na então TV Guajará, da família Lopo/Conceição Castro, decidiu encarar o “enviado” de Deus e tomar satisfações. Fernando Arara era um provocador nato, que morreu tragicamente, esmagado por uma kombi desgovernada da Sefa, naquela mangueira bem na esquina da D. Pedro com a Jerônimo Pimentel, em frente ao Hospital Geral de Belém (HGB).

Era final de fevereiro e as entrevistas do Inri Cristo no programa do Eloy tiveram uma repercussão estrondosa em toda Belém. Com aquela cara de Cristo ocidentalizado, o Inri falava com convicção que era o próprio filho de Deus e dizia curar cegos, cancerosos e deficientes físicos. Multidões iam para a porta do edifício Manoel Pinto da Silva, onde no penúltimo andar, o 25º, funcionava a TV Guajará canal 4, fechando literalmente o trânsito na confluência da avenida Presidente Vargas com as avenidas Nazaré e Assis de Vasconcelos. Uma loucura total.

Na noite anterior, durante um dos quatro ou cinco programas com a participação do Inri, o próprio “salvador” anunciou que na manhã do dia seguinte iria “libertar” o povo da idolatria e do culto às imagens de santos. Ousadia tentar isso na terra de Nossa Senhora de Nazaré e onde também proliferavam centenas de terreiros de umbanda. Dito e feito. Na manhã do dia 28, a praça Dom Pedro II estava superlotada. Por baixo, havia umas dez mil pessoas. Só o general Barata havia conseguido colocar tanta gente na praça em frente ao Palácio Lauro Sodré, onde funcionava a sede do governo papachibé.

No centro da praça, trepado ao lado da estátua de Dom Pedro, a figura do Inri se destacava. Ele pregava para a multidão, largando o pau na Igreja Católica. Ao lado do amigo Raul Thadeu da Ponte Souza, jornalista dos bons, já falecido, eu anotava tudo o que o Inri Cristo falava. Entre ataques às riquezas dos templos católicos e a demonização de bispos e padres, sob aplausos da turba extasiada, ele preparava-se para caminhar com seus discípulos rumo à Catedral, bem pertinho, para “cumprir a vontade de meu pai”, como dizia à multidão, quando eis que aparece o Fernando Arara, aos gritos, chamando o Inri de impostor.

Arara, quem o conheceu sabe disso, era uma figura quase mítica. Inteligentíssimo, estudante de medicina, sabia de cor todas as músicas de Bob Dylan. Sempre com um violão nas mãos, costumava brindar com Dylan a plateia de intelectuais, músicos, atores, e vagabundos metidos a hippies que frequentavam a escadinha do Teatro da Paz. Barbudo, cara de doido, Arara tinha a aparência do Ian Anderson, o flautista genial da banda de rock irlandesa Jethro Tull. Imaginem agora o Fernando Arara, um ateu fervoroso, frente a frente com Inri Cristo, confrontando-o em uma praça diante de uma multidão de fanáticos.

– “Impostor, farsante, canalha!”, berrava Fernando Arara para Inri Cristo. E completava: “Tu não és Cristo porra nenhuma. Tu és uma fraude!”.

Também furioso, com os olhos esbugalhados, Inri Cristo devolvia as ofensas: “Satanás, Belzebu! Meu pai me avisou que tu virias. Eu já te esperava, demônio. Tu estás a serviço dessa igreja cujo povo vou libertar. Vai embora, demônio!”.

Fernando Arara só não avançou para cima do Inri Cristo para comer o fígado dele, porque o Raul Thadeu agarrou o Arara e o afastou no local. Mesmo a uns 20 metros do Inri Cristo, Arara não parava de gritar: “Estelionatário da fé, vigarista de merda, impostor!”. E o Inri Cristo, rebatendo: “Maldito satanás, vai-te daqui!”. Eu quase estava morrendo de rir. O Raul Thadeu olhava para mim e não dizia nada, só fazia coçar os bigodes a la Salvador Dali.

De repente, não mais que de repente, Inri Cristo gritou para a multidão a palavra de ordem: “Expulsem vocês mesmos o Diabo daqui!”. Ordem dada, ordem cumprida. Ao que ver que se continuasse ali, naquela troca de gentilezas com o missionário do Divino, iria virar churrasquinho de gato na praça, Fernando Arara botou sebo nas canelas e saiu de pinote, no rumo da avenida Portugal, aos gritos de “Pega, pega”. Felizmente, ninguém o pegou.

Rindo, com ar de satisfeito, Inri Cristo, ao ver a tarefa cumprida, sentenciou: “Agora que o demônio foi embora, vamos fazer o que meu pai mandou”. E foram todos para a Igreja da Sé, invadida em segundos . Sob os olhares atônitos do arcebispo Dom Alberto Ramos, imagens de santos foram quebradas e o próprio arcebispo tachado de vendilhão. O resto vocês já sabem. Inri Cristo ficou quinze dias no presídio “São José”, na Praça Amazonas. Fui visitá-lo algumas vezes, como jornalista. E anotei coisas que, outro dia, quando tiver tempo, contarei pra vocês.

13 comentários em “A luta de Deus e o Diabo na terra do açaí

  1. Como certos atores conseguem enganar as pessoas tão facilmente , basta dizer o que querem ouvir, esse INRI e folclórico e falastrão nao muito distante do chamado Bispo Edir Macedo, camelo da Fe.

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  2. Sergio, isso é comum pacas!!
    Tem bispo, padre, pastor e o “Escambau de Termos” fazendo isso até hoje!
    Tem mais pessoas ouvindo e fazendo o que os sacerdotes de suas religiões falam, do que pregando o Evangelho que Ele nos apresentou!
    Esses charlatões são engraçados e trágicos ao mesmo tempo!

    Sábio e meio maluco era Baruch Spinoza (1632-1677) quando escreveu isso:

    Pára de ficar rezando e batendo no peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

    Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.

    Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

    Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.

    O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

    Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro!

    Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

    Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

    Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?

    Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.

    Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção à tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

    Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.

    Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro.

    Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.

    Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.

    E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? O que aprendeste?

    Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

    Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?

    Aborrece-me que me louvem. Cansa-me que agradeçam. Tu te sentes grato?

    Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido? Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

    Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações?

    Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti.

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  3. Trata-se da facilidade que muitos pessoas possuem de acreditarem , mas acreditarem mesmo em invencionisses religiosas que nada tem a ver com fé no sentido real. São pessoas, muitas vezes que se encontram em estado de desespero por motivo de doenças em si ou em familiares ou até mesmo por terem acumulado grandes dívidas que não conseguem pagar ou até mesmo por estarem atormentadas pelo desemprego. São pessoas nessas e outras situações que são alvos fáceis de charlatãos relgiosos e de golpes de vigaristas. Por mais que que eu seja uma pessoa de fé, não acredito como muitas pessoas se deixam enganar por promessas feitas por pessoas que se dizem estarem a mando de Deus na Terra. Se obervarmos pela cidade, veremos placas afixadas em alguns estabelecimentos, onde a propaganda diz que quem se tornar adepto daquela crendice ali estabelecida, poderá facilmente trazer a pessoa amada de volta ou se curar de doença grave. A pessoa poderá ainda quitar dívidas ou conseguir emprego facilmente. Confesso que mesmo acreditando na fé, não consigo acreditar no poder dessas pessoas e para mim tudo não passa de enganação porque a pessoa que ali for no desespero ainda tem de deixar uma um valor para o promesseiro mesmo antes de receber a “dádiva”. Por coincidência, eu tinha, uma vizinha que morada ao lado de minha casa, que frequentava uma dessas muitas igrejas da cidade, a qual não vou citar nomes para evitar desavenças, mas essa vizinha costuva doar quase tudo do pouco que possuia para a tal igreja. O fanatismo da senhora era tanto que quando ela passava um tempinho, até por falta de condições, sem doar ela entrava em desespero porque achava que iria adoecer. E quando pegava uma simples gripe, imaginem o despero da senhora que tratava de fazer o impossivel para conseguir os donativos para doar. Por curiosidade, a mulher so melhorou de vida, após por milagre, ela ter se libertado daquela crendice.

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  4. Impagável. Pra mim, Inri poderia ser contratado por qualquer programa de humor,pois é ele, o melhor comediante deste País.

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  5. É isso aí Sergio, gostei da sua visão.

    Por outro lado é bom que se diga que não se pode usar a mesma medida para todos.
    Principalmente vc amigo Edilson, é sabido, e digo isso com tristeza, que existem muitos pastores de araque, enganadores, verdadeiros surrupiadores não só do dinheiro, mas como da alegria alheia.

    Mas vivo no meio do povo evangélico há 19 anos e lhe garanto que vidas foram transformadas em todos os sentidos.

    A grande maioria das igrejas, e posso até citar algumas trabalham direito, mas assim como eu e vc e qualquer outra pessoa são vitimas de falsos pastores. Não esqueçamos que no meio dos 12 de Jesus tinha um.

    Não confunda as bolas. Aqui em Belém tem um jornalista famoso, que teve um problema sério familiar e com a ajuda do nosso querido Pr Lourival Pereira do Guamá, conseguiu guarida e com o poder do nome de Jesus, conseguiu uma grande vitória na sua vida.

    Isto é só um caso dos milhões. Não se pode por causa de um palhaço desses do Inri querer se desfazer desse trabalho fantastico do povo evangélico.

    Não posso falar pelos catolicos, mas sabemos que que é o mesmo caso, lá tem um grande trabalho, assim como o maior problemas deles é relacionado aos escandalos sexuais.

    Mas deforma egoista, jamis podemos fazer que por um ou por dois ou por mil pague todos.

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  6. Palavras sábias Edson.Não se pode generalizar.Eu mesmo não recebo um centavo de nenhuma igreja, vivo de meu trabalho.Mas continuo falando do quanto é bom servir a Jesus e não ao diabo.Muitas igrejas possuem um trabalho sério de resgate e de regeneração.Pessoas que por causa das drogas e álcool perderam tudo e até o contato e o respeito de familiares.Engraçado é que logo se apressam em relacionar o “Inri’ com pastores. O “Inri” já denegriu os pastores , assim como denigre padres.Ele acredita em seu desvairio que realmente é encarnação do nosso Yeshua.Tenho dó dele.E assim como há pastores há padres que agem incorretamente do ponto de vista moral , espiritual e financeiro.

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  7. De fato, Edson, toda generalização acaba cometendo injustiça. O problema é que mesmo sabendo disso todos nós(ih, já estou generalizando), aqui e acolá, acabamos por generalizar.

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  8. Senhores, sou ateu, mas sei que a Igreja Católica repudia a crença de que o bem e o mal estão no homem porque a isso se dá o nome de maniqueísmo, que era uma doutrina cristã até Santo Agostinho e que foi destituída pela Igreja desde então, por volta do Sec. III d.C. Segundo o maniqueísmo, todas as coisas possuíam uma essência dualista e antagônica: luz e trevas, bem e mal, e assim por diante… se bem e mal fossem naturais ao ser humano, este não teria culpa de praticar maldades. Para Santo Agostinho, o homem recebe o bem de Deus e uma certa recusa em receber este bem é que viria a ser o mal. E aí nasce a ideia do livre-arbítrio: é o homem que escolhe entre o bem (Deus) e o mal (o diabo). Com isso é possível culpar um ser humano pelas maldades que pratique porventura. O maniqueísmo é oficialmente deixado de lado e o livre-arbítrio é adotado como doutrina. Para a Igreja, não é possível ter livre-arbítrio e abrigar o bem e o mal em si. É preciso considerar a filosofia de Santo Agostinho para se chegar a de Santo Tomás de Aquino. Francamente, vejo o Inri Cristo como um aproveitador e enganador. Particularmente, como ateu, que por definição é alguém que não crê em qualquer religião, não vejo problemas em ter religião se é espontâneo e benéfico ao crente, mas sou totalmente contra a ação de aproveitadores da fé alheia porque tal coisa tende a ser perniciosa para o crente e toda a sociedade.

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  9. O INRI é o Messias, Adão, Abraão, Moisés, David, Jesus, etc. O Filho do Homem que nos momentos de crise volta ao mundo caótico para conduzi os serem humanos na senda do cominho luminoso.

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  10. Gerson Nogueira
    Gostaria de uma informação sua , se você souber onde o corpo do Fernando
    Lúcio esta sepúltado .
    Pois tenho vontade de visitar.
    Ele é meu pai, segundo minha mãe também já falecida.
    Sou Celina.
    Obrigado!

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