Susto, virada e liderança

Por Gerson Nogueira

O Remo conseguiu reagir a tempo e conseguiu trazer três pontos de Boavista. Um belo resultado, principalmente porque o time levou sufoco nos primeiros minutos, sofreu um gol em novo descuido da marcação, mas, aos poucos, foi se aprumando e terminou o primeiro tempo já em igualdade, graças a um gol do zagueiro Ávalos. Na etapa final, Edson Gaúcho resolveu desfazer o esquema da meia-cancha botando Jhonnatan no lugar de Léo Medeiros, que atuou mal, sentindo a falta de entrosamento. Com a meio estabilizado, o time passou a tomar iniciativa e dominar o jogo. Por volta dos 30 minutos, em trama envolvendo Reis e Ratinho, veio a virada. O resultado garante a liderança temporária do grupo.

No final, o técnico Edson Gaúcho admitiu que a equipe não foi bem. Prova de que acompanhou o jogo com olhos realistas. O time carece ainda de muita afinação. Foram muitos passes errados, dificuldades tremendas na ligação entre meio e ataque, além da conhecida instabilidade na defesa. A novidade foi a boa apresentação de Ávalos, apontado aqui como uma das apostas arriscadas do Remo para a partida. Voluntarioso, o veterano beque liderou o setor defensivo e foi à frente para ajudar em lances de bola parada. Ajudou mesmo, marcando o gol de empate em jogada de centroavante rompedor, segundo relato de Valmir Rodrigues, na Rádio Clube.

Apesar da boa vitória, que podia ter sido mais ampla (embora injusta) se Cassiano e Ratinho aproveitassem as chances criadas nos instantes finais, a impressão deixada pelo Remo é de um time inseguro, sujeito a apagões, que se enrola até diante de adversários tecnicamente modestos, como o Náutico. É preciso avaliar, porém, que o problema se deve à falta de maior entrosamento em função das constantes alterações na equipe neste começo de competição. As turbulências irão se repetir enquanto a equipe estiver em processo de construção.

Em Boavista, por exemplo, ocorreram três estreias (Jamilton, Léo Medeiros e Mendes) que influíram razoavelmente no comportamento do time. Jamilton deu segurança à defesa com boas intervenções ao longo do jogo, mas Léo teve atuação fraca e Mendes pouco foi notado, a não ser por uma oportunidade desperdiçada logo nos primeiros minutos.

Atento, Gaúcho tratou de reavaliar seu plano de voo ainda no intervalo. Trocou Léo por Jhonnatan e recompôs a dupla de volantes com André. Adiantou Chiquita e deixou Ratinho bem próximo a Cassiano e Reis no ataque. Com isso, ganhou em rapidez e habilidade, proporcionando ao Remo seu melhor momento em campo. Essa saída improvisada pode ser a chave para a nova formação titular, que será trabalhada nas duas semanas de folga na tabela.

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As imagens do treino físico de ontem do Paissandu na areia, afiando as garras para o clássico de segunda à noite contra o Fortaleza, expõem a aplicação dos veteranos lado a lado com os garotos. Interessante ver a presteza dos experientes Harisson e Vanderson puxando a fila, acompanhando o azougue Pikachu. Jovens e velhos elefantes estão conscientes do bom momento do time na Série C. As vitórias convincentes dão segurança a todos, mas aumentam a concorrência por um lugar entre os titulares. É aquele momento especial em que ninguém se sente dono da posição e, ao mesmo tempo, todos acreditam ter chances.

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Romário anda imitando Pelé na arte de cometer trombadas verbais. Malhou por atacado a convocação da seleção olímpica, mas acabou acertando no varejo: Hulk, grande aposta de Mano para o ataque, não tem envergadura para salvador da pátria e passa longe do conceito de craque. O estrilo do Baixinho serviu pelo menos deixar o superestimado atacante do Porto sob pressão, sabedor de que precisará matar um leão por dia em Londres.

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Sempre alerta, o baluarte Luiz Otávio Bandeira relata à coluna sobre seu susto ao comprar uma caneca de porcelana do Remo. “Fiquei espantado ao olhar direito a caneca. A fabricação é ‘made in China’. Será que estão usando em vão o nome do Leão?”, indaga o inquieto torcedor do clube de Periçá.

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Direto do blog

“Foi um jogo difícil, como serão todos os jogos dessa Série D. Um time da grandeza do Remo sempre vai sentir muito mais, pois seus adversários jogam contra ele como se fizessem o jogo da vida deles. Não foi à toa que o Fluminense (guardadas as devidas proporções) sentiu imensas dificuldades quando esteve na Série C. Acredito que essa parada do Remo, de 15 dias, é tudo que o Gaúcho precisava para encaixar o Remo. Gostei da vitória, na raça e na disposição, e Série D é assim mesmo”.

De Cláudio Santos, técnico do Colúmbia (Val-de-Cans), apostando na evolução do Remo na competição.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 11)

D. Eugênio, ótima relação com os jornais, sempre

Por Hildegard Angel

Muito impressionantes os obituários publicados hoje sobre dom Eugênio Salles. Li, reli e fui conferir de novo o nome do retratado, pois achei que devia haver algum equívoco. Pensei que se tratasse de algum obituário tardio do saudoso dom Helder Câmara, este sim um santinho, que deixou suas pegadas missionárias, como exemplo de caridade cristã. Ele pregava uma igreja voltada para os pobres, era um exemplo de desprendimento, humildade, absoluta ausência de qualquer tipo de vaidade ou arrogância, um sacerdote de “pés descalços”, totalmente solidário aos jovens perseguidos pela ditadura e, por isso mesmo, ele mesmo um perseguido e removido, através das políticas eclesiásticas, do Rio de Janeiro, então centro dos acontecimentos nacionais, para Olinda.

Dom Helder foi chamado de “Arcebispo Vermelho”, teve seu acesso à mídia vetado pelo AI-5, foi pessoalmente perseguido pelo ditador Médici e, como contraponto a tantas maldades, dom Helder só havia plantado coisas boas: construiu a Cruzada São Sebastião no Jardim de Alah, fundou a Comissão de Justiça e Paz, fundou o Banco da Providência, que multiplicou e até hoje multiplica bondades aos pobres neste estado. Faz pensar que, não fosse por dom Helder, a posição da Igreja Católica no Rio, onde não tem mais a liderança que tinha, estaria bem pior.

Com dom Eugênio à frente, fechando os olhos às maldades cometidas durante a ditadura, fechando seus ouvidos e os portões do Sumaré aos familiares dos jovens ditos “subversivos”, que lá iam levar suas súplicas, como fez com minha mãe, Zuzu Angel (e isso está documentado), e hoje, supreendentemente, os jornais querem nos fazer acreditar que ocorreu justo o contrário! Era público e notório e mais do que sabido naquela época que dom Eugênio endossava que fossem chamados de “padres vermelhos” aqueles religiosos que abrigavam, sob suas batinas poídas, em suas paróquias suburbanas, os jovens que tentavam escapar das torturas e das sentenças de morte sumária. Mas não é isso que os obituários hoje contam.

Como não contam da mágoa de padres jovens, brilhantes pregadores, que conseguiam lotar as missas de suas paróquias com legiões de fiéis, multidões de católicos, jovens padres que ganhavam visibilidade, convites, apareciam na imprensa, somavam admirações e logo eram removidos por dom Eugênio para paróquias bem distantes, como se fossem ironicamente punidos, em vez de serem premiados, pelo belo trabalho que realizavam para a Igreja. Os bons pregadores eram afastados. Alguns desses padres, que poderiam ter feito belíssimas carreiras no clero, foram podados na origem. Uns caíram no mais completo esquecimento. Outros entraram em depressão. Soube de alguns que abandonaram a batina. Não era de boa política sobressair-se na “era dom Eugênio Salles”. Duplo castigo: para os padres e para os paroquianos, que assim iam acumulando decepções com sua religião. Outro fator que contribuiu para o declínio católico no Rio nesse período foi a série de proibições tolas, que, em vez de inspirar bondade, em vez de agregar seguidores, só motivaram afastamentos.

Nas cerimônias de casamento, foram proibidas músicas classificadas como “não sacras”, e sabe-se lá por quais critérios. Então, por exemplo, uma jovem chamada Luciana não podia mais entrar na igreja ao som da singela cantiga “Luciana”, de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, como esteve tão em moda. Caprichos, arbitrariedades, tolices, que só afastavam os católicos de sua igreja. Batizados só podiam ser coletivos. Padres só eram autorizados a celebrar batizados e casamentos na igreja, não mais em residências, sítios, casas de festas. O que antes era corriqueiro passou a ser proibido. Então, tornou-se usual acontecerem casamentos de católicos oficiados por pastores protestantes. Logo, o oficiante mais procurado, era o pastor Jonas Rezende, pai da atriz Lídia Brondi, lembram? Que aliás prega lindamente. A sociedade católica do Rio acostumou-se a escutar as belíssimas preleções do pastor Jonas, seus inspiradíssimos sermões matrimoniais.

Tudo passou a ser difícil na Igreja Católica. Conseguir marcar uma missa de sétimo dia, só com pistolão. Uma extrema unção em casa, só gente muito bem relacionada. Vários pátios paroquiais laterais às igrejas, onde os fiéis antes confraternizavam, onde aconteciam as quermesses, os bazares, as reuniões pós-missas, antigos centros de convívio, foram entregues à especulação imobiliária. Viraram edifícios, shopping centers. Antigas igrejas foram passadas nos cobres. Instalaram-se em andares de prédio. Outras se tornaram construções espremidas entre um edifício e outro, como aconteceu com a Nossa Senhora da Paz. Igrejas sem horário pra abrir nem pra fechar, “por questões de segurança”. A Igreja Católica, no Rio, sob a égide de dom Eugênio Salles, foi cada vez mais se distanciando dos pobres e se aproximando, cultivando, cortejando as estruturas do poder. Isso não poderia acabar bem. Acabou no menor percentual de católicos no país: 45,8%.

Não há, neste texto, qualquer intenção de ressentimento. Apenas o desejo jornalístico da correção histórica. Dom Eugênio padeceu na terra de um mal de saúde. Os pecados, já pagou por eles. Em seus últimos tempos de vida, a lucidez e a ausência dela alternaram-se. Atenciosos, o arcebispo dom Orani Tempesta, assim como o cardeal-arcebispo anterior, dom Eusébio, mantinham o antigo cardeal do Rio vivendo na residência do Sumaré, com todos os cuidados, a família, a estrutura proporcionada pela Arquidiocese, a que não mais teria direito, por já estar afastado do cargo.

Dom Eugênio teve, em vida, uma grande habilidade: manter ótimas relações com os grandes jornais, para os quais contribuiu regularmente com artigos. Ótimas relações com os jornais, os jornalistas e os donos dos jornais antes da morte. E, como vimos pelo que foi publicado no dia de hoje, também após ela. E são os jornais que legam os registros que escrevem a História.