Otários!

Por Camilo Delduque (engenheiro civil)

É o que somos, por opção ignorante, pela insistência de nos sentirmos colonizados, sem voz própria, com a apatia enraizada em nossas vísceras. O instante de abundar a felicidade na cabeça do paraense, principalmente os belenenses, chegou. Chegou a hora de explodirmos as nossas mais ricas idéias enriquecidas de pobres ideais. As férias chegaram e com elas as conseqüências do nosso mutismo. Vamos enfrentar a buraqueira das estradas, o trânsito medonho comandado por motoristas mal educados e deselegantes vigilantes do governo. Quem for a Salinas, subirá em 75 lombadas de dimensões caóticas, uma para cada três quilômetros, em média. Assim, o penitente paraense, ou não, chegará ao inferno dos absurdos, onde habita a extorsão combinada ao matuto oportunismo insensato. Lá, um prato de pescada cozida custa R$ 70,00. Nem pensar em meia-dúzia de caranguejos por R$ 25,00!
Se não sabemos quem somos, nada podemos falar de reclamações encafifadas em solilóquios. Ao acobertarmos segredos de parentes e conhecidos, apanhados em safadezas plenas, reconhecemos nossa incapacidade de nos defrontarmos com a seriedade de uma reclamação.
Belém padece desse cinismo porque ouve um prefeito ignaro e falsificador debulhar seus arrotos megalomaníacos sobre a cambada rude que o elegeu. A cidade de Salinópolis, tal como Belém, merece um administrador com vontade de ser brasileiro e olhar dirigido ao progresso. Parece predestinação, mas, com raras exceções, é sempre a mesma gentalha que se instala nas prefeituras paraenses. Ruas esburacadas, assaltos, lixo, infra-estrutura carente e tantas outras
degradações, dignas de um filme de terror, é o cenário flagrante das nossas bibocas. E alguns ainda querem Salinas, Algodoal, Soure, e tantas outras vítimas do infortúnio, como pólo turístico. Nunca! Otários…

Os donos do continente

Por Gerson Nogueira

Ninguém segura o Corinthians. A única taça que faltava na galeria de  troféus do segundo mais popular clube brasileiro foi ganha ontem, com todos os méritos, ante um Boca Juniors desfigurado, que nem de longe lembra aquele time tinhoso e ameaçador de outros tempos. Dividido entre torcer e secar, embora bem mais perto da segunda opção, acabei me rendendo aos poucos à determinação quase marcial dos corintianos. E mais ainda quando o Boca, de súbito, passou a se comportar como time pequeno, distribuindo pontapés e trombadas antes do final do primeiro tempo.
O Boca nem lembrava o glorioso esquadrão de outras jornadas, cuja altivez aprendemos a admirar à distância. O clube xeneize, mesmo com todo o respeito que um finalista merece, parecia um jacaré desdentado, sem forças para atacar e enfraquecido demais para se defender. Juan Riquelme, o maestro inspirado de outros tempos, deve ter feito no Pacaembu sua valsa do adeus. Nunca errou tantos passes na brilhante carreira.
O Corinthians, no esquema manjado de duas linhas de quatro homens, correu como nunca e fez o jogo ficar fácil a partir de bolas esticadas para as laterais do campo, como mandam os bons manuais. Emerson, experiente em jornadas decisivas, parecia absolutamente consciente de que uma final é decidida a partir de pequenos erros.
Sempre foi assim desde que os ingleses inventaram o futebol moderno, mas muitos esquecem sempre. Trata-se do esporte mais sujeito às leis do acaso. É o passe errado que vira contra-ataque, a bola que desvia no bico da chuteira ou o chute que resvala na barreira e mata o goleiro. Depois de se dedicar ferrenhamente a não perder, o Corinthians foi premiado com dois lances fortuitos, próprios de finais emocionantes e imprevisíveis.
No mais bonito deles, um toque inusitado de Danilo, cercado por uns 300 argentinos, deixou Emerson na cara do gol. Esteticamente, foi a grande jogada de todos os 90 minutos. O segundo gol, tão importante quanto o primeiro, foi mais simplório, tendo origem num presente do beque Schiavi.
Libertadores é um torneio marcado por batalhas encarniçadas, às vezes sangrentas, quase sempre catimbadas. Não consigo, porém, me acostumar à falsa esperteza tão ao gosto de certos jogadores. Emerson, o nome da noite, estragou uma atuação histórica ao se comportar como ator de quinta categoria, prestando-se ao papel do brasileiro safo, que provoca argentinos e se dá bem. Não vejo glória nesse tipo de malandragem.
Nem o Corinthians, nem o próprio Sheik precisavam disso. Pior ainda foi a aprovação abobalhada dos comentaristas da transmissão, aplaudindo a patuscada. Futebol é ganho com gols, dribles e
superioridade técnica.

Nem o meu temporário encantamento com o jogo áspero e rude dos novos campeões do continente me impede de imaginar o confronto entre Chelsea e Corinthians, na decisão do Mundial de Clubes. Será a coroação do futebol de resultados, o modo feio de tratar a bola. Mas, enfim, há quem goste.

Nem bem surgiram os balões de ensaio sobre nova proposta de negociação da área do Carrossel, irrompe a ameaça de lançamento do ex-presidente Amaro Klautau como candidato à eleição do Remo no fim do ano. Não é mera coincidência que os dois boatos circulem ao mesmo tempo e tenham praticamente a mesma origem.
Talento para o ramo imobiliário o cartola já demonstrou ter, embora sem qualquer zelo pelo patrimônio histórico do próprio clube, visto que destruiu a golpes de picareta o escudo que encimava o pórtico do Evandro Almeida. Aliás, talvez agora o Conselho Deliberativo resolva
aplicar as penalidades cabíveis por gesto tão desrespeitoso.

Ninguém duvida que o Brasil vive um de seus piores momentos no futebol. Faltava apenas um certificado internacional para carimbar esse período negro. O ranking da Fifa divulgado ontem não deixa dúvidas sobre o inferno astral da seleção canarinho. Pela primeira vez desde que foi instituído, em 1993, o levantamento põe o país pentacampeão do mundo fora do top 10.
Tropeços recentes frente ao México e a Argentina, somando-se à vexatória atuação na última Copa América, deixaram o Brasil em 11º lugar, atrás de Croácia e Dinamarca, forças de segunda linha na Europa.
O pior é que, com a aproximação da Copa do Mundo e depois da vitória corintiana na Libertadores, logo surgirão corneteiros clamando pela volta do futebol brucutu cultivado por Dunga e gloriosamente derrotado em 2010.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 05)