Que volte a velha subversão

Por Caio Teixeira (*)

De repente o mundo virou uma grande nostalgia. Raul Seixas, Roger Waters, Bob Dylan e Paul Mc Cartney, Stones cada vez mais vivos, velhos Mutantes,  eternos parceiros do futuro na reluzente galáxia. Nos anos 60/70 tivemos a mais importante revolução comportamental do século. Muito mais que revolução sexual, a grande mudança era a formada de paz, amor, sexo, drogas e rock’n roll, que poderiam ser sintetizados numa palavra, meio esquecida nos dias de hoje: liberdade. Para ser mutante bastava um pouco de coragem e muitos a tinham. Quem quiser saber mais assista o imperdível documentário “Raul, o início, o fim e o meio”.

A receita era altamente subversiva à ordem dominante de ontem e de hoje. Pior do que o socialismo bem explicado de Marx, os hippies e outras tribos pregavam a liberdade de ser e esta liberdade atacava o dogma mais sagrado do sistema: o consumo. Após um período de desorientação veio a reação implacável do sistema. Nos anos 80 a mídia/mercado jogou pesado para se apoderar da música, transformar cultura em moda e dirigi-la ao encontro de seus interesses travestida em objeto de consumo. Uma geração Yuppie (não confundir com o arremedo de rede social) de jovens caretas cheirando pó e trabalhando sem parar foi a resposta. O culto ao dinheiro. Mas o capitalismo não nasceu para tótem e ainda não inventaram mídia capaz de transformar cuspe em mel. O resultado, na constatação de seus próprios autores foi uma década perdida não apenas na economia mundial neoliberal mas em tudo o mais. A produção de objetos de consumo culturais era formada por dezenas de “neo” teorias e “new” gêneros de música com os quais tentaram vulgarizar o velho, bom e revolucionário rock. Nada funcionou. Nada convenceu. Tudo laboratório, tudo igual, tudo igual a nada. Um grande Nada. Um buraco negro na história, na arte, na cultura, no tempo. Descontinuaram o caminho da revolta, mas algumas pedras continuaram rolando morro acima, alguns engenheiros seguiram enfrentando a onda onde muita gente naufragou. O ímpeto criador não pode ser falsificado. De tudo resultou uma grande neurose coletiva de querer ser o que não se é. Querer ser rico, bonito, atleta, corredor de formula 1, esquiador, paraquedista, piloto de motocross, de avião, de jet ski. Piloto de cartão de crédito. Ninguém pode ser o que não é, então a depressão virou moda. E teve o neoliberalismo também.

E agora o que acontece? Sem saber para onde dar o primeiro passo, por exclusão, vamos chegando à necessidade da subversão total.

A subversão começa de cima. A política é subvertida, é pervertida. Democracia é um conceito subvertido. O sistema de representação é subvertido, corrompido. A corrupção está em todos os lados. O governo ameaça com devassa fiscal, e a sonegação continua. Quem é o dono do voto? É o eleitor que marca o xis ou quem financiou a campanha, quem contratou o marqueteiro que induziu o eleitor? As CPIs não mandam ninguém para a cadeia: os investigados viram ministros ou senadores. É a subversão da ética, da moral, dos princípios. Máscaras caem mas a mídia as recoloca no lugar. A televisão, extensão do olho, mostra uma coisa enquanto o próprio olho enxerga outra. As pessoas não conseguem distinguir o que vêem do que pensam estar vendo, mas apesar da dificuldade ótica algumas mentes ainda conseguem vislumbrar que alguma coisa está fora da ordem. Sempre alguns primeiro. Então resta fechar os olhos e pular. Um ato de ousadia. O resgate da ousadia que ficou suspensa durante os tempos de buraco negro. A ousadia de continuar a partir do lugar onde paramos, a ousadia de procurar esse lugar do futuro olhando para trás. A ousadia poderia ter sido a marca dos anos 90 se tivéssemos subvertido todas as ordens. A ousadia de subverter a subversão oficial arrancando de uma vez todas as máscaras, de subverter a cultura oficial pela cultura real criada com tesão.

A subversão passa pela reconquista da capacidade de criar de cada um. Todo humano é um artista. A arte antecede a razão. Arte é ousadia. Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça. Viva Glauber! Um alfabeto, lápis e papel. A Câmera e o lápis são as armas da idéia libertada.

Dizem que quem só anda por caminhos conhecidos, só chegará onde os outros já chegaram. Pode-se dizer também que quem só anda dentro da ordem estabelecida, só vai chegar onde ela quiser nos levar. Mudar é subverter. A única chance de surgir o novo é sobre as ruínas do hoje, então é hora de começar a quebrar tudo o que está errado. Do contrário, tudo ficará como está: errado. Então? Está esperando o que?

(*) Caio Teixeira é jornalista.

8 comentários em “Que volte a velha subversão

  1. Conceitualmente bonito, e verdadeiro. Mas retrospectivo em demasia, contando e analisando o que já passou e narrando o que parece voltar. Utópico. Tudo é cíclico e o que se repete

  2. …errei a tecla! Cont. o que se repete se dá naturalmente, e isso estamos vendo. Tudo se esgota e algo começa ou recomeça. Mas belo texto. Agora a parte da política, só tristeza, nojo. Voto facultativo já! Nulo neles!

  3. Sr. Maurício Carneiro

    O voto facultativo não resolve. Nulo também não

    Já pensei em todos (mas todos mesmo) deixarem de votar.

    Também não resolveria, pois os safados e corruptos permaneceriam por falta de substitutos.

    O que pode resolver é a Educação (com maiúscula mesmo). Mas sabe Deus quando….. pois é o que menos interessa aos que estão no poder.

    Só nos resta mesmo é confiar em Deus e esperar.

  4. Voto nulo há pelo menos 8 anos.
    desde que me decepcionei com os rumos que tomou o PT, quando assumiu a presidência da republica, fiquei completamente desiludido.
    como é que os caras podem ter expulsado a Heloísa Helena e hoje terem o Collor como aliado?

    PSDB, PMDB, PT, PDdoB, PPS, PR, DEM. Cara só tem ladrão. só ladrão.

    Por isso só voto nulo, pois acho que se chegássemos a um número de 40 % de votos nulos a sociedade iria passar o seu descontentamentos com esses que aí estão e iria encorajar bons canditatos a concorrerem.

    sei lá!
    quam sabe não da certo?

  5. De fato, Luiz, a educação é tudo mas…”O que pode resolver é a Educação (com maiúscula mesmo). Mas sabe Deus quando….. pois é o que menos interessa aos que estão no poder” como você disse. Sugiro a leitura de http://www.renatojanine.pro.br/Brasil/sobreovoto.html. Interessantíssima explanação. Na verdade, alguma coisa tem de ser feita urgente contra a corrupção que a tudo atrasa e aniquila, inclusive à educação.
    Mas o nulo já é um bom modo de protesto.

  6. Também sou partidário(como Marx,acredito somente na transformação da sociedade por meio dessa ferramenta de luta)das idéias do texto do jornalista C.T.;exceções à parte.
    Três categorias e conceitos porém,necessitam se materializar historicamente como instituições socialistas,para que a análise em questão,passe irretocavelmente.CAPITALISMO;SOCIALISMO e EDUCAÇÃO.
    Entre os dois extremos paradoxos,antagônicos e inconciliáveis,capitalismo x socialismo,a educação apresenta-se como um dos pilares fundamentais e estratégicos da tão nossa(?) almejada transformação social profunda.Desde que esta seja a Paulofreireana.
    Em nossa sociedade dividida em lutas de classes,entre governantes x governados,ou,dominantes x dominados,prevalece os interesses da/as classe/s governantes,e como tal,a EDUCAÇÃO(educação tradicional liberal-educação bancária) é dominante.Temos uma educação burguesa,a serviço da manutenção do STABLISMENT.
    Por meio desta educação,advém toda a hegemonia POLÍTICA e ECONOMICA “das coisas estabelecidas”,fora de ordens,dos governantes e seu estado representativo tecnoburocratizado.
    Através dela,distorce-se,difama-se,calunia-se,desmente-se,e,aliena-se os fatos historicamente ciêntificos,no jogo pelo poder dominante.
    Nos anos 60/70/80,dizia ela que tinhamos dois sistemas sociais como alternativas de vida:O CAPITALISMO,e O SOCIALISMO;este,do mal,enquanto O CAPITALISMO simbolizava o paraiso na terra.Mentira deslavada e caida por terra.Hoje enterrada em lamas de corrupções por todo o planeta.
    Criou ela,ainda,a instituição PATRIOTISMO,seja um patriota,defenda com sua vida,o seu país!.Isto,é obvio,é uma artemanha para enfraquecer a unidade,a coesão de lutas da/s classe/s,fragmentando cada país em seu devido lugar.Cada um,com seu CAPITALISMO,se vire…Cada trabalhador,é diferente,em cada país.
    Sem delongas,a revolução operária,de 60 pra cá,sofreu e sofre,a contra-revolução burguesa,o contra golpe.
    O SOCIALISMO,apesar disso é permanente,viável,utopico,mesmo com sua implosão,através do STALINISMO, que é de fato um fenômeno social e político desvirtuoso,destruidor dos PROJETOS REVOLUCIONÁRIOS SOCIALISTAS MUNDIAIS.No qual,os governantes e sua educação,dizem para os governados,que: O SOCIALISMO(COMUNISMO) não existe,nunca existiu,e nem irá existir,como forma de sociedade.Tanta ingenuidade!,e burrice!,que dá tiros em seus próprios pés!.De fato,a tentativa de SOCIALISMO,aos “moldes” de Marx/Engels,somente virá…,trata-se de uma alternativa por vir!,a revolução é permanente e mundial,as experiências localizadas na história,REVOLUÇÃO BURGUESA/FRANCESA;COMUNA de PARIS;REVOLUÇÃO RUSSA,ETC,foram o inicio desse processo interrompido,contra-golpeado pelos governantes,por falta de elementos transformadores históricos constituidos no seio dos governados.
    O que está ocorrendo,hoje,são as ultimas tentativas de vida/sobrevivencia,do CAPITALISMO moribundo,caduco,ultrapassado e obsoleto,em sua forma NEOLIBERAL,muito bem avaliado,em grande parte no texto!!!

    PARABÉNS C.T.,
    ESPERO QUE NA PRÁTICA HAJAS COMO UM JORNALISTA OUT-SIDERS…!!!

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