Por Juca Kfouri
PEDRO ROCHA, o uruguaio que foi dos melhores jogadores da história do futebol, sempre gostou de contar que por duas vezes, em campo, quis chamar sua mãe para ajudá-lo. Na primeira, tinha só 17 anos, e estreava no clássico Peñarol e Nacional, em pleno Centenário. Na segunda, já mais que consagrado, aos 32 anos, quando enfrentou a Holanda na Copa de 1974, na Alemanha.
Porque quando pegou a bola pela primeira vez, quatro laranjas mecânicas investiram feito abelhas e tomaram a bola dele. Ele não entendeu nada, mas acalmou-se até que, quando recebeu a segunda bola, a cena se repetiu. Então ele quis a mãe. E assim foi o jogo todo. Pedro Rocha era um craque clássico, de lançamentos longos, passadas elegantes, chutes fatais e brilhou não só no seu país, mas no São Paulo.
Doutor Sócrates, que dispensa apresentação e desperta imensa saudade, contava que só uma vez deu um palpite na carreira de Raí. Foi depois de vê-lo jogar também no São Paulo, nos anos 80. “Pivete, a bola não pode passar por cima de você. Ela tem de passar pelo seu pé, sempre”, ensinou. Ensinou porque fazia, porque, em seu caso, a teoria na prática era a prática.
Dos grandes times que vi, a começar pelo melhor deles, o Santos de Pelé, só ele, o Santos de Pelé, jogava e deixava jogar. Tomava gols e goleava mais. Tinha tantos talentos que excedia, como a seleção brasileira de 1958, de Mané, Didi e Pelé, memória aí, no entanto, mais de infância. Ou a de 1970, esta sim, vivíssima e fabulosa, constelação.
O Flamengo de Zico, em 1981, fruto da concepção modernizadora de Cláudio Coutinho, era mais parecido com a seleção de Telê Santana, no ano seguinte, mas nada que se parecesse com o que os holandeses de Rinus Michels ensinaram em 1974, na luta incessante pela posse de bola aliada a uma porção de jogadores não só talentosos como inteligentes, comandados pelo brilhante Johan Cruijjf, que jogavam e não deixavam jogar, sem posições fixas, e na qual todos faziam de tudo.
Exatamente como o Barcelona, ou melhor, exatamente não. Porque o Barça levou essa questão da posse de bola ao extremo, com seus triângulos móveis que, além do mais, desgastam menos, muito menos do que quem corre atrás deles. E daí você não vê nenhum chutão, nenhuma ligação direta, a bola passando permanentemente pelo meio de campo, esteja quem lá estiver e nenhuma aposta nos chuveirinhos ou na bola parada como solução mágica.
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