Por Gerson Nogueira
Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates. O mais afinado quarteto de meio-campo que o futebol viu desde Clodoaldo, Gerson, Pelé e Roberto Rivelino e quase tão próximo daquele de Zito, Didi, Pelé e Zagallo. No timaço de 1982, desafortunadamente excluído do pódio mundial, o Doutor era a ponta da lança do arco habilmente construído por Mestre Telê. Mesmo sem o caneco, deixou claro naquele mundial que era um dos grandes.
Com frieza, pode-se dizer que Sócrates tinha tudo para não ser o craque que foi. Alto, magrelo e meio desengonçado, não tinha perfil de atleta. Aliás, como Romário, sempre renegou essa condição. Conformava-se em ser apenas um jogador.
Tratou a bola com alma de artista. Em entrevista recente, contou que o célebre toque de calcanhar, sua marca registrada, nasceu de uma necessidade: para fugir ao choque com os zagueiros, desenvolveu a manha de tocar a bola com extrema rapidez usando a parte posterior do pé. Com isso, iludia os marcadores e, ao mesmo tempo, abria mil possibilidades para um companheiro melhor colocado.
Lembro do assombro quando Sócrates no Botafogo de Ribeirão Preto. Parecia a reedição de Afonsinho, o cabeludo de discurso contestador que agitou o Botafogo no final dos anos 60. Os dois eram médicos e carbonários, mas em campo tinham características bem diferentes.
Afonsinho era um meia-armador clássico, de toques e lançamentos, raramente fazendo gols. Sócrates estabeleceu-se pelas passadas largas e os gols sensacionais. Trocou logo Ribeirão pelo Parque São Jorge. Além de apreciar o estilo elegante, simpatizei com o jeito despachado e as ideias quase sempre subversivas – sim, isso pode ser bom.
O mais bacana da história: o Doutor era um legítimo caboclo paraense (lá de Igarapé-Açu), um conterrâneo que transmitia orgulho de suas origens. Só quem veio lá do mato sabe o que isso significa.
Depois de Belém e Ribeirão, veio a glória. A liderança da Democracia Corintiana, o engajamento nas grandes causas, o discurso articulado e inconformista. Por tudo isso, ganhou respeito como cidadão. Tínhamos finalmente um craque consciente e politizado, postura que destoa de tantos ídolos cheios de grana e pobres de conteúdo. Foi maestro naquele Corinthians de Zenon, Casagrande, Biro-Biro, Zé Maria e Vladimir. Jogou duas Copas, não trouxe o caneco. Azar das Copas.
Esteve discretamente na Fiorentina, passou uma chuva no Flamengo e deu descanso às finas canelas ao perceber que o corpo já não aguentava o tranco. Saiu dos holofotes, mas permaneceu destemido, atuante, sempre à esquerda. Altivo e romântico nas posições assumidas, até mesmo sobre suas fraquezas, como a doença que o alquebrou nos últimos meses.
Um grande homem, um brasileiro digno, um caboclo paraense merecedor de todo o nosso orgulho. Que descanse em paz.
A festa corintiana não foi completa porque o Doutor partiu, mas o título do mais empolgante Brasileiro do sistema de pontos corridos acabou em boas mãos. O Corinthians não tem um time brilhante, mas esbanja regularidade e a raça de sempre. O pulso firme de Tite também contou pontos no balanço final.
Vale dizer que, pelo incrível equilíbrio da disputa, o campeonato podia ter ficado com o Vasco – e também haveria justiça. No embate com o Flamengo, o time de Dedé esteve perto de arrancar a vitória. Até mereceu, mas não levou. Sem entrar nas gozações que perseguem os vascaínos, pode-se dizer que o vice-campeonato foi merecido.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 5)

Deixe uma resposta