Opinião: Novela já era

Por André Forastieri

Vejo a novela das nove pela primeira vez. As personagens têm nome de personagem de novela, Tereza Cristina e Griselda da Silva, e comportamento de personagem de novela. A vilã é uma dondoca pérfida, estilo Malvina Cruela ou Odete Roitmann. A mocinha é uma pobre batalhadora, honesta, de família. única diferença gritante desta novela para as da minha infância: as protagonistas estão na casa dos cinquenta e tantos. Têm filhos adultos, neto. Impensável em outras épocas. Obrigatório em 2011. Por quê? Porque hoje só coroa assiste novela.

Os jovens estão na internet, nos games, nas redes sociais, no celular. Hoje, menos de um terço dos televisores brasileiros estão ligados, no horário nobre. Temos mais o que fazer, e quando mais jovem, mais multitarefas. Jovem não tem saco para ouvir uma música até o fim, imagine suportar oito meses uma novela. Fui conferir a lista completa de personagens da novela. Renata Sorrah, Angela Vieira, Arlete Salles – é realmente elenco de novela dos anos 70, time de estrelas de cinquentonas para cima. Os galãs todos mais novos, que surpresa… Na rabeira do elenco, uma multidão de jovenzitos estilo Malhação, rapazes bombadinhos, garotas fitness, em papéis secundários pra baixo.

Novela é como jornal. Não acabam tão cedo. Só quando morrer o último viciado – daqui uns 30 anos. Os fundamentos econômicos dos dois estão sendo corroídos já. Não dá para ter cada vez audiência menor, e cada vez cobrar anúncio mais caro. E mais: não é porque a TV está ligada na novela, que as pessoas estão assistindo, ou prestando atenção nos anúncios. Frequentemente, a TV está ligada no horário nobre enquanto a pessoa está no Orkut, no Facebook, no portal, jogando. A publicidade entra por um ouvido e sai por outro. De vez em quando, um comercial consegue quebrar a barreira. É o caso daquele dos Pôneis Malditos. Se você escapou, parabéns. É um anúncio de carro. Uma caminhonete qualquer empaca no lamaçal. O dono xinga, “pôneis malditos!”.

Abre o capô, estão no motor um grupo de pôneizinhos afeminados de desenho animado, cantando uma música grudenta. No final, o locutor anuncia uma pick-up nervosa, com não sei quantos cavalos de potência etc. A música virou viral na internet. Se espalhou. Rendeu muitas imitações e paródias. Não faço ideia se vendeu um carro a mais por causa deste barulho todo. O importante é que este anúncio se viralizou foi nos meios digitais. A tevê é incidental na história. Tivesse a montadora feito uma campanha apenas em portais e redes sociais, o efeito poderia ter sido um pouco menor, igual, ou um pouco maior – não há como saber. Mas o custo de veiculação seria infinitamente menor, e portanto sabemos que o retorno sobre o investimento teria sido animal. Más notícias para os canais de TV, e para as agências de publicidade.

E com tudo isso, as novelas proliferam por todos os canais e horários, e com alguma audiência e receita. É que novela tem, além dos anúncios, receita que vem diretamente do merchandising. E outra: canal que tem novela e jornal no horário nobre, tem pinta de mais importante, e atrai anúncios mais caros. Mas as coisas mudam, e estão mudando rápido. Nos Estados Unidos, o horário nobre despenca de audiência semana após semana. Se rendeu aos reality shows, de custo muitíssimo menor que os seriados, e que suprem bem a sede do público por dramas de mentira, peitões de silicone, vulgaridade etc. As capas de revista de supermercado, nos EUA, são das irmãs Kardashian.

Aqui, a narrativa redundante e previsível, a embalagem luxuosa e a sexualidade comportada das novelas ainda serve como o anestésico perfeito após um longo dia de trabalho. Mas só para quem cresceu no mundo da mídia linear. A nova geração exige estimulação constante e interatividade na ponta dos dedos. A novela viverá por muito tempo – mas já era.

Um comentário em “Opinião: Novela já era

  1. E até agora ninguem foi capaz de produzir algo capaz de concorrer com as novelas da Venus Platinada. Se o brasileiro gosta mesmo de porcaria, por que as novelas concorrentes nunca arranharam a lider de audiencia. Até hoje, assisti : Beto Rockfeler, Gabriela, Saramandaia, Roque Santeiro, O Bem Amado, e só. Não me arrependo, pois elas fizeram-me rir.

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