Coluna: Vítimas da incompetência

Parece exagero, mas o futebol profissional caminha, a passos bem largos, para incluir crianças entre os alvos dos grandes clubes. O que era um fenômeno que se abatia sobre clubes argentinos em ações desfechadas por Real Madri e Barcelona. Acontece que essa febre consumista finalmente chegou ao Pará. Douglas, de 13 anos, que jogava futsal no Remo, foi cooptado por olheiros do Santos e levado para as divisões de base do clube. Com a anuência dos pais, já está integrado ao pequeno exército de candidatos a craques do Peixe, na Vila Belmiro.
Como de praxe no futebol regional, o Remo não ganha nada na operação e dificilmente terá direito a qualquer valor em caso de transferência do garoto para o futebol internacional. Isso, obviamente, levando em conta que as expectativas de sucesso se confirmem.
A operação não chega a ser inédita. Paulo Henrique Ganso, catapultado dos juniores do Paissandu – depois de revelado na Tuna – para o Santos, também despertou a atenção de olheiros santistas. Tiago Alves, oriundo do Remo, seguiu mais ou menos o mesmo padrão de assédio.
Chama atenção nos três casos a lentidão dos técnicos locais em notar o que os profissionais de fora perceberam com incrível clareza. Não há desculpa cabível para tantos cochilos. Quando um garoto tem habilidades especiais deve ser observado com mais atenção, merecendo cuidados maiores na preparação.
Estranhamente, tanto no Remo como no Paissandu, nenhum dos que lidaram com Ganso, Tiago e Douglas conseguiram detectar, com a devida antecedência, as jóias que tinham em mãos. Por isso, antes de avaliar como invasiva a ação do Santos, entendo que os clubes devem repensar a maneira como estão cuidando de suas crias.
A partir desses exemplos, fica evidente que os departamentos de futebol amador não cumprem sua finalidade de selecionar os melhores. O mais grave é que os erros de avaliação causam sérios danos aos clubes. Com todas as carências conhecidas, esforçam-se para descobrir e formar jogadores, mas não conseguem lucrar com os melhores, dados de mão-beijada a agremiações mais endinheiradas.
Depois da porta arrombada, não adianta lamentar as perdas, culpando aliciadores ou espertos em geral. Mais honesto seria admitir a própria incompetência.       
 
 
Último boletim do site Chance de Gol exclui sumariamente o Paissandu dos times cotados para o acesso à Série B. No grupo E da Série C, o CRB aparece com 94,0 % de possibilidades. O América (RN) tem 71,3 % e até o Luverdense, recém-chegado à disputa, ostenta 18,8%. Vale lembrar que, há um mês, quando o Rio Branco ainda estava vivo na disputa, o Paissandu ostentava 92% de chances.
O consolo é que o Chance de Gol já deu chutes monumentais, que depois viraram micos históricos. É o caso da previsão de queda do Fluminense em 2009, que o site sustentou até as rodadas finais. O Tricolor acabou escapando, contrariando a lógica cartesiana dos números. Que a mesma escrita seja quebrada neste ano por Andrade e seus comandados. 
 
 
Mesmo fora do rico futebol europeu, Neymar venceu a barreira geográfica e se inseriu entre os candidatos ao prêmio máximo da Fifa. Dificilmente a honraria deixará de cair nas mãos do argentino Messi, por razões óbvias, mas o moleque abusado está chegando para brigar (de verdade) pela premiação de 2012. 

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 2) 

8 comentários em “Coluna: Vítimas da incompetência

  1. Não bastasse a incompetencia nossos clubes (sem grana) são impotentes para “segurar” suas revelações. No sul-maravilha as
    coisas não sao muito diferentes. Neymar ainda permanece no Brasil graças a mobilização santista para rete-lo. Houvesse um outro jogador santista interessando aos grandes europeus, com certeza o clube brasileiro não teria mais munição em seu arsenal de defesa.

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  2. Não é uma questão de acuidade visual nobre Gerson.É falta mesmo de interesse ou pura preguiça mental aliada ao preciosismo burocra´tico que já faz parte cultural de nossa região Norte.
    Infelizmente é verdade.Aqui em campo Grande/MS fui cadastrar-me para receber/tirar uma carteira de órgão estadual .Aí levei todos os documentos e esqueci o comprovante de residência.Aí a moça foi conferindo a documentação até que disse-me falta o do endereço.Antes que eu me desculpasse apresentasse uma desculpa e justificativa ela me disse , sua esposa já fez a dela ? Ao responder que sim ela me disse então aguarde , vou até a sala do arquivo com o nome de sua esposa apanho o comprovante de endereço , faço uma xerox na sala ao lado e aí tá td resolvido.Fiquei maravilhado.Em Belém ao passar por problemas similares, a funcionária me fazia voltar no outro dia sem um pingo de educação me “enxotava ” da sala.Está aí a maior diferença , não há proatividade, apenas burocracia e má vontade. Claro há exceçoes.

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  3. Infelizmente as nossas jóias saem muito cedo daqui e continuara acontecendo.E por isso que o Santos e o melhor time do Brasil e da America e poderá ser do mundo se ganhar o poderoso Barcelona.Esse negocio de probabilidade no futebol nunca adiantou,eu acredito no meu Papao ele vai trazer uma grande vitoria lá do Mato Grosso.

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  4. A lei somente permite contrato profissional a partir de 16 anos e só assim é que o atleta passa a ter vínculo com o clube e este ser indenizado com a multa recisória. Antes disso, somente os pais ou responsáveis podem autorizar precariamente a ida dos filhos craques para outras plagas. Geralmente, os clubes adquirintes pagam salários para os pais ou oferecem empregos, além de moradia decente. Por aqui, Remo e Paysandu, não pagam nem profissionais e seus funcionários, imagine pagar pais e menores de 16 anos. Com a atual estrutura dos clubes, nunca irão construir um Ganso, Tiago, Douglas ou outro nesse nível. Isso é igual a natação, até os 14 anos, nossos clubes ainda conseguem mantê-los mesmo aqui em Belém. Depois, só seguindo para o sul maravilha, em busca de clubes mais estruturados. E no caso da natação, se quiser ser medalhista olímpico, precisará da preparação fora do país. É tudo uma questão de infraestrutura e boa administração.

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  5. Voces acham mesmo que ninguem tanto em Remo como no Paysandu não levam nada nestas negociações? Então porque voces acham que essas múmias que se apossaram dos clubes não largam o osso? Ah! É por puro amor, sem nenhum interesse. Faz uma auditoria séria nos clubes pra ver como acaba rápidinho esse “amor”.

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  6. Gerson, “chutes”? É preciso respeitar os números. São prognósticos, apenas apontam tendências e probabilidades. Quando o Fluminense correu o risco de rebaixamento, todos os matemáticos lhe davam 99% de chances de cair. O Fluminense só tinha uma chance, ou 1% de chances, melhor dizendo, de escapar: não perder nenhum jogo nas últimas 11 rodadas. E foi o que o time fez. Foram 8 vitórias e 3 empates em 11 jogos. Quantas vezes a gente vê isso acontecer? Um time que está praticamente rebaixado ganhar 8 jogos dos últimos 11? Eu diria que 1% das vezes é um índice mais que razoável.

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  7. Paulo, com todo respeito, já vi chutes monumentais embalados em cálculos elaboradíssimos – e não estou falando apenas dos institutos que se dedicam a fazer projeções em torneios de futebol.

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  8. Bom, Gerson, nesse caso é outra história. Estou falando especificamente do pessoal que elabora essas estatísticas com dados concretos.

    Seja como for, os números refletem bem a confiança que dá pra depositar no Paysandu a uma altura dessas. Pra quem estava praticamente classificado na terceira rodada, agora parece que falta um longo caminho :-/

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