Coluna: A caixinha de surpresas

Do céu ao inferno em 90 minutos. Assim devem ter se sentido os torcedores do Internacional depois da vexatória derrota para o desconhecido Mazembe, na semifinal do Mundial de Clubes. Podem buscar as teorias mais complexas, mas o resultado foi um desses acidentes próprios do futebol. Nenhum outro jogo coletivo abre tantas portas para resultados inesperados como o velho esporte bretão. E é bom que seja assim, mesmo que a situação seja dolorosamente cruel para os colorados.

Aprendemos, desde sempre, que zebras passeiam em qualquer tipo de terreno ou competição. Seja em meros torneios domésticos ou em competições de primeira linha. E só há um jeito de escapar das falsetas do futebol: jogar sempre no limite máximo da seriedade, evitando dar mole, como gostam de dizer os boleiros.

E a verdade é que ontem o Inter deu mole, bateu fofo nas divididas. A bola parecia pesar uns dez quilos nos pés dos jogadores. Talvez pelo lado folclórico, com aqueles penteados exóticos e coreografias desengonçadas, os times africanos quase não são levados a sério. E olha que há tempos eles ensaiam aprontar uma grande surpresa.  

Duvido que Celso Roth (ou qualquer jogador do Inter) soubesse, antes do Mundial, quem é e de onde saiu esse desconhecido time alvinegro. Agora sabe. Descobriu da pior maneira. Na estréia, contra o Pachuca, o campeão do Congo já havia mostrado desassombro. Por curiosidade, acompanhei a partida e fiquei impressionado com a correria dos africanos.

Curiosamente, nem precisaram correr tanto na semifinal. Ficaram mais à espreita, defendendo-se e esperando o momento do contragolpe. Aconteceu o que sempre ocorre em duelos desiguais. O time grande toma conta da bola e fica pressionando, cercando a área. O Inter fez isso, mas sem ameaçar de verdade. Não havia criatividade para buscar tabelinhas, forçar faltas ou arriscar chutes de fora da área. Em alguns momentos, o time de Roth lembrou a lerdeza da seleção de Dunga na última Copa.

Quando chutava – e chutou pouco –, o Colorado encontrava pela frente um goleiraço. Kidiaba mostrou-se seguro, pegou tudo. Ao contrário do Inter, o Mazembe saía com rapidez. Quando as chances apareceram, seus jogadores aproveitaram. Com objetividade, sem enfeitar. Como não têm maiores preocupações, os africanos ainda conseguem se divertir em campo. Parecem moleques disputando uma pelada. Isso faz toda a diferença. Quase ninguém no futebol moderno desfruta dos prazeres do jogo. Talvez apenas o endiabrado Messi jogue assim hoje. Os outros entram em campo como se estivessem a caminho do matadouro ou para bater ponto na repartição.

A ironia é que, em 2006, o Inter era a zebra. Levantou a taça porque Adriano Gabiru e a retranca de Abelão surpreenderam o todo-poderoso Barcelona. Desta vez, com pose de favorito, o Colorado desabou diante da molecagem africana. É duro, vai render piadas eternas dos gremistas e gozações argentinas, mas é educativo. As leis imutáveis do futebol ensinam que ninguém vence de véspera.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 15)

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