Conexão África – balanço final

Sobre um país em reconstrução

Foram 37 dias em solo sul-africano. Percorri lugares e ouvi o som de uma língua que na verdade concentra mais de uma dezena de dialetos. Tive a chance de acompanhar, nesse período, a uma sucessão de eventos interessantes, nem sempre relacionados com o futebol. Fora dos modernos estádios da Copa havia um mundo diferente seguindo sua vida normal, quase alheio aos jogos e artistas da bola.
Cabe observar que a visita que o circo do futebol faz a um país, a cada quatro anos, nem sempre se restringe ao esporte em si. Resulta dessa invasão uma multiplicidade de fatos e fenômenos que fogem ao controle rígido da Fifa, dona da bola e do jogo, mas que, felizmente, pouco pode fazer em relação aos acontecimentos extra-campo.
Não tenho dúvida que, se fosse possível, a entidade suprema do futebol baixaria decretos para fazer a vida parar enquanto a bola estivesse a rolar nos gramados. Mais ou menos na mesma linha do posicionamento tomado em relação ao governo da Nigéria, advertido duramente por ter
se envolvido nos negócios da bola – e da Fifa.
Para nossa sorte, a África do Sul estava imune aos mandamentos de Sepp Blatter e seu lugar-tenente Jerôme Valcke. Pudemos todos, então, desfrutar das graças de um país em reconstrução, ainda dividido por terríveis diferenças, assentado em muitos silêncios e frases interrompidas. Mais importante, porém, é que transpira vida e entusiasmo em todas as frentes. A Copa do Mundo, pelo caráter ruidoso de seus entreatos, misturou-se ao cotidiano do país, incorporando-se modestamente ao seu ritmo e às suas vontades.
Permitiu aos que estavam ali a trabalho, como nós, testemunhar – com olhos privilegiados – a quantas anda o trabalho de reunificação do país que foi partido ao meio pelo terrível regime do apartheid. Soubemos, não pelas autoridades, que as diferentes tribos ainda tentam se entender, apesar das aparências de plena convivência. Verificamos, de perto, que muitas escolas no centro de Johanesburgo – a cidade mais africana do país – ainda preservam divisões claras entre brancos e negros. E que o bairro-cidade de Soweto permanece impávido nas suas bandeiras de liberdade, mas é território quase impenetrável para o “white people” como nos lembrava nosso guia moçambicano Francisco, que arranha um português precário e se defende em zulu e inglês para ganhar o sustento.
Numa noite escura e fria no distante povoado de Kirkwood, a 70 quilômetros de Porto Elizabeth, eu e o companheiro Valmir Jorge, da Rádio Paiquerê (PR), vimos como a auto-estima sul-africana ainda depende de alguns empurrões. Na porta de um supermercado, um grupo de negros era atendido pelas grades, recebendo e pagando pelas mercadorias compradas.
Dois brancos chegaram e os portões foram milagrosamente abertos, num abre-te sésamo que chocou a uma dupla de brasileiros tão mestiça quanto a galera que era atendida com explícita desconfiança. Detalhe significativo: os funcionários eram todos negros também. Mais importante ainda: a estranheza pelo tratamento diferenciado ficou restrita a nós. Ninguém parece ter se dado conta do absurdo da discriminação.
Ao longo da Copa, na recepção dos estádios e na área de serviços gerais dos centros de imprensa da Fifa, pontificavam trabalhadores negros, recrutados como voluntários. Pelos registros oficiais, 16 mil pessoas, das mais diferentes idades e ramificações tribais. Poucos conseguiam lidar com as orientações técnicas quanto à posição dos profissionais nas cabines e numeração das tribunas. Alguns acabavam dependendo de nossa ajuda para desmanchar as pequenas confusões nos íngremes degraus dos estádios.
Curiosamente, são negros os responsáveis pelos portões da área dos leões no parque destinado à visitação dos turistas. Sua função é abrir e fechar as pesadas grades, alertando com gestos para os riscos de um braço desatento deixado de fora das janelas dos carros. Como também pertencem à cor negra os serviços de limpeza e arrumação nos hotéis, bem como o de assar pizzas nos restaurantes bacanas de Durban, uma cidade tão festiva e praiana quanto ao Rio e tão desigual quanto. Ou nos insanos trabalhos nas pedreiras em torno das ricas minas de diamantes, a apenas dois quilômetros do IBC de Johanesburgo.
Quero dizer que, de maneira geral, os trabalhos de natureza primária e que demandam menor qualificação têm dono cedo na África do Sul – fato que nos remetia, diariamente, à paisagem social brasileira, cuja segregação se manifesta de outras maneiras, embora com resultados bem semelhantes.
Impossível não recordar os versos inspirados de Gilberto Gil – “de um lado esse carnaval; do outro, a fome total” – ao ver que a condução dos táxis-lotação de Johanesburgo e Pretória só obedecem ao comando de motoristas mestiços. Olhos compridos, postavam-se do lado de fora do suntuoso Soccer City assistindo à movimentação de torcedores europeus e sul-americanos, festivamente vestidos para o ritual futebolístico da Copa.
Mais ou menos como os oito mil trabalhadores da construção civil que ganharam um ingresso para ir ver jogos da Copa, mas preferiram fundar uma cooperativa e revender os bilhetes. Na lógica natural de quem luta para sobreviver, era mais lucrativo arrecadar um dinheirinho a ter que ir a uma partida sem poder levar a família junto.
As imagens fortes e áridas das batalhas pela liberdade, empreendidas por Nelson Mabida Mandela e seus companheiros, preenchem as imensas paredes horizontais do Museu do Apartheid, que todos que viajam à África do Sul deveriam ser intimados a visitar. Heroísmo e dor, glória e sangue lado a lado nas fotografias descoradas, nas frases corajosas dos grandes homens que tentaram (e conseguiram) mudar a realidade, devolvendo as cores reais a um país tão bonito.
As lições que se aprende na passagem pelo museu são muito marcadas, quase cravadas na mente, pelos pés descalços das crianças perseguidas pela polícia dos brancos e pelas escolas sem carteiras e livros. Agradeço o tempo permitido pela desclassificação do time de Dunga nas quartas-de-final pela chance de ir ao museu, coincidentemente localizado a três quarteirões do nosso hotel, no bairro de Booysens, em Joburgo.
Foi uma oportunidade maravilhosa de entender um pouquinho das diversas camadas que formam essa deslumbrantemente complexa África do Sul, tão bem retratada naqueles gritos emocionados de “Madiba, Madiba” quando Mandela deu uma volta no estádio, minutos antes da final entre Espanha
e Holanda.
Esta coluna, de balanço final da cobertura da Copa, tinha que ser dedicada aos homens, mulheres e crianças que vi nas ruas, beiras de estrada, estádios e hotéis. Quando um dia voltar, poderei dizer um “sawu bonna” sem sotaque de turista, dedicando do fundo do coração que a África do Sul tenha realmente razões para dizer “bom dia” sempre que o sol raiar no horizonte.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 19)

12 comentários em “Conexão África – balanço final

  1. Gerson, e triste ler teu relato, dói na alma essa inconsciência social e humana. Eu sempre dizia aos meus alunos, principalmente aos negros,”Dediquem-se, pois só a escola pode levá-los a dias melhores”, já que aos brancos e senhores ela pouco interfere em seus juízos.

    1. Tentei ser realista no relato final, caro Luiz, mas algumas imagens são fortes e calam fundo. Mas, apesar de tudo, acho que é um país belíssimo a caminho de um grande futuro ainda.

  2. Excelente texto Gerson.

    O Apartheid na Africa do Sul, como a ditadura militar brasileira, ainda faz sombra nossa sociedade + 20 anos.

    Certamente meus pequenos (filhos) verão um Brasil melhor, claro que depende de nós (pais) à votarem certo em 2014.

    Abs

    MF

    1. Tem razão, Manoel. Vi coisas que não estão distantes da nossa realidade, mas é inegável que lá as questões raciais atingiram um nível absurdamente radical. E as sequelas permanecem.

    1. Obrigado, camarada. Posso lhe assegurar que alguns dos momentos mais gratificantes e bacanas da cobertura ocorreram fora dos estádios e longe da bola.

  3. Aliás,amigos, todas, “Conexão África”, postadas nas colunas do amigo Gerson, deram um show. Essa de encerramento, então. Parabéns.

  4. Gerson sou da Marinha e em 1995 estive na Cidade do Cabo e visitei um shoping center se nao me falha a memoria o nome era Victoria e realmente o que vc fala e verdade as atendentes das lojas todas loiras os serviçais todos negros estive em San Diego na California em 1990 fiquei na Base Naval de San Diego e as faxineiras que cuidavam e limpavam os apartamentos eram sempre Mexicanas Cubanas Filipinas nunca Americanas mas Gerson quero aproveitar e parabenizar toda equipe da Radio Clube que fez a cobertura da copa via os jogos escutando a Clube vcs simplismente deram um show enquanto tem emissora local que cede seus espaços para radios de outros estados tirando ate espaço dos radialistas locais a Clube vai e da show alias ontem uma radio local transmitia o jogo do corinthians outra a do ceara e internacional com flashs de aguia e fortaleza outra em fm tranmitia o jogo do flamengo e somente a Clube com locutor proprio ao vivo de Fortaleza transmitia na integra o jogo do Aguia por isso a Clube e lider Gerson mais uma vez parabens a toda a equipe da Radio Clube um forte abraço ah quando puder bota alguma coisa do credence clearwater revival

    1. Caro Antonio, agradeço pelas palavras generosas sobre nosso trabalho e faço questão sempre de destacar a figura de Guilherme Guerreiro, grande comandante da equipe e incansável defensor dos valores do rádio paraense. Quanto ao Creedence Clearwater Revival, garanto que logo estará de volta à nossa discoteca básica. É uma de minhas bandas prediletas também.

      1. Aí que está o secredo do sucesso. A clube conta com um bom técnico e esse é de casa, o GG. O elenco da Clube, entre eles o Gerson, bem acondicionados profissionalmente, dão sufoco nos concorrentes e aí, mano, é só goleada. Falar mais do que isso é desnecessario, a audiência da emissora diz tudo.

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