Conexão África (33)

Europa ensaia domínio absoluto

Já são duas Copas consecutivas sob domínio europeu. Em 2006, França e Itália decidiram o título no Mundial da Alemanha. Agora, na primeira Copa africana, Holanda e Espanha disputam o laurel máximo do futebol. Pode ser apenas coincidência, mas o fato é que a Europa nunca tinha exercido uma hegemonia tão acentuada. Quando terminou a primeira fase do torneio sul-africano, os sul-americanos estavam em alta, com seus cinco representantes classificados com louvor, enquanto o Velho Continente amargava o desembarque prematuro de França e Itália, justamente a última campeã mundial.
O tempo se encarregaria de mostrar que a bela arrancada inicial dos sul-americanos não passava de nuvem passageira. Nas fases seguintes, com enfrentamento entre grandes times, Brasil, Argentina, Chile e Paraguai tomaram o rumo de casa. Só o Uruguai conseguiu lavar a honra e permanecer até a última rodada, disputando hoje o terceiro lugar da competição. Pega pela proa a Alemanha de Müeller, Özil, Schweinsteiger e Lahm, a fim de mostrar serviço depois da derrota para a Espanha.
A recuperação europeia na competição foi surpreendente por dois aspectos. O primeiro deles é o próprio período da Copa, que coincide com o final da temporada na Europa e apanha a maioria dos craques exauridos pela ferrenha disputa nos campeonatos mais difíceis do planeta. O outro é a crescente crítica que autoridades e analistas fazem à importação maciça de jogadores pelos endinheirados clubes ingleses, italianos, espanhóis e alemães.
Se o ensaio inicial de fracasso europeu deu a entender que os importadores seriam punidos, a sequência da Copa desmentiu isso. Espanha, Holanda e Alemanha honram o continente com seleções que misturam juventude e talento. São equipes montadas para jogar ofensivamente e que baseiam suas estratégias em meias criativos, de estilo quase clássico. Sneijder, Xavi, Iniesta, Pedro, Özil, Müeller, Villa, Podolski, Fernando Torres, Robben, Lahm, Van Persie e Schweinsteiger são mais técnicos que grande parte dos sul-americanos presentes ao Mundial. Talvez somente Messi e  Kaká (com alguma
condescendência) estejam no mesmo nível dessa turma. De repente, as expectativas mudaram em relação ao futebol-espetáculo. Quem costumava se exibir em Copas eram os latinos. Teses e ensaios foram construídos em cima dessa inegável facilidade para o drible e o malabarismo em campo. A levar em conta esse torneio que será decidido amanhã, o talento está se espraiando melhor pelos continentes. Triste notícia para nós, que julgávamos ter privilégios naturais. Excelente novidade para os fãs do verdadeiro futebol, que não dependem mais de Brasil e Argentina para ver craques em ação.

Copa 2014: São Paulo sai na frente

Teve boa repercussão aqui em Johanesburgo a veiculação de anúncio institucional do governo de São Paulo e da prefeitura paulistana. É uma espécie de chamada para a capital econômica do Brasil, falando de suas atrações e personagens. Pelé faz a narração, aparece no vídeo e canta uma musiquinha meio chinfrim, mas o certo é que o comercial passou em todas as emissoras abertas e a cabo. Deve ter custado uma nota preta, mas o dinheiro foi bem empregado.

Saudades do maior cronista do país

Na próxima segunda-feira, 12, a morte de João Saldanha completará 20 anos. O maior cronista esportivo de todos os tempos morreu em plena Copa do Mundo da Itália, em 1990. O homem partiu, mas sua história de coragem continua bem viva entre os que aprenderam a admirá-lo. João Sem Medo desafiou governos com sua língua afiada e estilo desassombrado. Comentou futebol na Rádio Globo durante décadas, sempre ao lado de feras da locução, como Waldyr Amaral e Jorge Cúri. No auge do rádio esportivo, era tão reverenciado que qualquer craque da época. E com inteira justiça, pois seus comentários lúcidos e mordazes não tinham paralelo – e não têm até hoje. O célebre episódio de sua demissão do comando do escrete que viria a ser tri no México nunca foi fielmente contado.
João saiu por ter se recusado a convocar Dario, ídolo do Galo e jogador admirado pelo ditador de plantão, o general Garrastazu Médici. Como eram tempos em que a farda contava mais do que as ideias, João Havelange e Antonio do Passo se pelavam de medo quando o governo queria alguma coisa. Fizeram incontáveis apelos a João, que manteve pé firme e cunhou a frase definitiva: “Ele (Médici) escala seus ministros e eu escalo a Seleção”. Dadá Peito de Aço só foi convocado quando o flexível Zagallo assumiu o comando. Mas, como ficaria evidente durante aquela Copa, foi uma convocação apenas para fazer média com o general, pois o centroavante foi esquecido no banco de reservas. Não havia lugar para ele naquela legião de craques – como João havia cansado de argumentar. O velho comunista, como sempre, tinha razão.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste sábado, 10)

Deixe uma resposta