Conexão África (25)

Tudo depende de Kaká e Robinho

Marcar Robben e Sneijder, como fez a Eslováquia, sem sucesso, ou apenas exercer vigilância sobre a movimentação de ambos? Esta é, certamente, a maior preocupação de Dunga e Jorginho a respeito do adversário de hoje. Quem acompanha a Holanda na Copa sabe que seus dois principais jogadores não podem ficar excessivamente livres, sob pena de decidirem o jogo em lances individuais ou criando boas chances para os demais companheiros. As observações em cima da campanha dos holandeses podem ser fundamentais para o comportamento do Brasil nesta tarde sul-africana (manhã brasileira).
Todo o jogo da equipe de Marwijck se concentra nas ações de Sneijder, ajudado de perto por Van Bommel e Van Persie. Quando o time ataca, Robben parte pelo lado direito e Kuyt posiciona-se à esquerda, esperando o cruzamento ou prendendo um marcador para facilitar a entrada de um jogador pelo meio da área. Quando a situação não é favorável para o ataque direto sobre a zaga, o time utiliza com frequência os disparos de fora da área, tendo em Sneijder um especialista nesse tipo de jogada.
Como Felipe Melo deve entrar jogando, apesar dos mistérios de Dunga, é provável que a tarefa de acompanhar o meia-armador da Inter de Milão seja entregue a ele. De todos os cenários para o trabalho de bloqueio à criatividade holandesa este é, sem dúvida, o mais temerário. Lento e quase sempre violento, Melo pode ser envolvido e sobrecarregar a zaga brasileira, setor mais ajustado da Seleção de Dunga. Gilberto Silva não tem o mesmo vigor do companheiro de marcação e deve ser designado para barrar a movimentação de Van Bommel.
Para deter Robben, é improvável que Dunga deixe Michel Bastos sozinho. Daniel Alves ou o próprio Gilberto Silva deverão acompanhar o ponta, cujo drible para um lado só – corte seco para o interior da área e arremate forte com o pé esquerdo – é frequentemente citado por todos, mas quase nunca neutralizado. Foi assim que marcou o primeiro gol da Holanda, nas oitavas de final, contra a Eslováquia. O drible foi aplicado em cima de seus dois marcadores, que não conseguiram evitar que usasse a canhota, apesar do tempo que Robben levou para ajeitar a bola.
Sempre que enfrenta times tecnicamente bons, a Seleção costuma variar seu repertório e quase sempre surpreende, positivamente. Contra a Holanda, adversário que eliminou o Brasil em 1974, mas foi superado (sempre com dificuldade) em 1994 e 1998, não deve ser diferente. É importante, porém, que Kaká e Robinho tenham espaço e alternativas para desenvolver suas habilidades. Até porque, como craques da equipe, devem despertar no técnico da Holanda os mesmíssimos temores que Robben e Sneijder inspiram do lado de cá.
Dunga só não pode cair na armadilha que vitimou Zagallo há 36 anos. Presunçoso, o Velho Lobo avaliou que a Laranja Mecânica de Rinus Michels e Johan Cruyff não merecia atenções especiais. Eles é que deveriam se preocupar com os então tricampeões do mundo, bravateou o técnico. O nó tático que levaria no jogo deixou claro que bons times sempre merecem respeito. Não muito, para que não vire subserviência; nem pouco, para que não se torne irresponsabilidade. O equilíbrio deve ser a meta a ser perseguida, até porque Brasil e Holanda não têm mais qualquer semelhança com os times de 1974.

Trio tenta repetir marca dos gênios

Pelé e Garrincha jogaram 40 partidos juntos pela Seleção. Foram 35 vitórias e cinco empates. Números que impressionam pela marca triunfal. Na atual equipe, o trio Kaká-Luís Fabiano-Robinho inicia uma ainda modesta estatística que lembra o cartel da dupla genial: 16 jogos, 16 vitórias. O índice impressiona e põe esses jogadores na condição de fundamentais para o sucesso do escrete brasileiro na Copa. Na única ocasião em que a trindade se desfez na África do Sul – contra Portugal – o ataque brasileiro não funcionou. No torneio, Luís Fabiano marcou três gols, Robinho um e Kaká ainda está sem balançar as redes, embora esteja entre os principais “garçons” do torneio, ao lado do alemão Müller, com três passes que ocasionaram gols.

Rúgbi e críquete recuperam espaço

As ruas da África do Sul começam a perder o colorido típico da Copa. As bandeiras que enfeitavam prédios e esquinas no começo do torneio já perderam o brilho, assim como o fugaz interesse da maioria da população pelo futebol. Nas emissoras de TV, os programas dedicados ao críquete e ao rúgbi ganham cada vez mais espaço, deixando em segundo plano a reta final do Mundial. Os jornais seguem a mesma tendência, confirmando a impressão de que os estádios sul-africanos podem se transformar em gigantescos e monumentais elefantes brancos.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 2)

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