Conexão África (18)

Adversário do jeito que Dunga gosta

Como virou regra na atual Seleção Brasileira, os mistérios prevalecem às vésperas de jogo. A comissão técnica capricha nos segredos e despista o tempo todo, até mesmo quando já se sabe de antemão que o principal jogador do time não poderá ser escalado. Sabia-se, também, que o volante Elano dificilmente poderia participar, em função da lesão sofrida contra a Costa do Marfim. No afã de confundir os jornalistas, Dunga deixou até a última hora para definir (sem confirmar oficialmente) que Daniel Alves deve entrar como volante e Júlio Batista na vaga de Kaká.
Caso essas opções se confirmem, a Seleção terá um perfil bem diferente do que vinha apresentando na Copa. Para começar, Júlio Batista atua praticamente como atacante, o que obriga Robinho a recuar para fazer o papel habitualmente cumprido por Kaká. A lamentar a ausência de dois
jogadores responsáveis pelos melhores momentos do Brasil na Copa até aqui, no jogo contra a Costa do Marfim. Ambos apareceram muito bem quando saíram do posicionamento conhecido e caíram pelas extremidades do campo. Essa mudança, no segundo tempo daquela partida, foi
determinante para a vitória da Seleção, resultando inclusive no gol de Elano.
Apesar das ausências importantes, o Brasil tem condições de realizar uma grande apresentação. Portugal, animado pela goleada sobre a Coréia do Norte, deverá jogar ofensivamente, buscando a vitória para garantir a primeira colocação no grupo. Além disso, pelo que se nota nas ruas de Durban, a torcida portuguesa terá presença maciça no estádio Moses Mabhida, incentivando Cristiano Ronaldo e seus companheiros a mais uma vitória consagradora. São os ingredientes perfeitos para que Dunga explore os espaços que a defesa adversária vai permitir.
O técnico brasileiro costuma dizer, com razão, que a Seleção se apresenta melhor na medida em que enfrenta adversários de nível. Portugal é o primeiro grande oponente em seu caminho. Que o Brasil mostre, enfim, do que é capaz.

Azzura sofre vexame histórico

Coerente com a tradição italiana de gestos desesperados, a imprensa da pátria de Paolo Rossi não perdoou a eliminação (como lanterna de seu
grupo) na primeira fase da Copa do Mundo. Não é novidade, pois a Azzurra já havia dado esse vexame cinco vezes antes, mas agora há a humilhação do último lugar, graças à péssima campanha: uma derrota vexatória para a Eslováquia depois de dois empates no sufoco, contra Paraguai e Nova Zelândia. A última queda feia havia sido no mundial de 1974, na então Alemanha Ocidental. Há, também, o peso histórico dentro da competição. Tetracampeã do mundo, a Itália foi a vencedora da última Copa e tinha ambiciosos planos de se igualar ao Brasil, único país pentacampeão. A rigor, tanto as pretensões de título quanto a choradeira da imprensa italiana são exageradas. O time de Marcelo Lippi é muito fraco, até mesmo em comparação com o escrete de quatro anos atrás, reconhecidamente uma seleção sem maiores encantos. Ganhou aquele Mundial mais em função da força da camisa e do nivelamento por baixo da competição. Desta vez, as esperanças talvez se concentrassem na fraca participação inicial de quase todos os favoritos. E o lamento emocionado dos jogadores em campo, depois do jogo, pode ser entendido como o desespero de ver escapar a preciosa chance do quinto título. Na Alemanha, Lippi ainda contou com Del Piero em boa forma. Pirllo também se apresentou bem e Cannavaro foi eleito o melhor jogador do torneio, mesmo sendo um zagueiro. Como a escola italiana de jogar futebol se nutre de um inegável talento na retaguarda, imaginava-se que o grupo atual desse conta de lutar pelo bicampeonato. Não deu. A queda para seleções sem pedigree, como Paraguai e Eslováquia, reforça as suspeitas de que o título de 2006 foi produto muito mais da sorte do que dos méritos da seleção. Como na França, que deixou a África do Sul pela porta dos fundos, é provável que surjam investigações e questionamentos pela pífia trajetória da Itália na Copa. Mas, para bom observador, a equipe foi vítima de um mal crônico no futebol mundial: a carência de bons jogadores, principalmente nos países que assumem o papel de importadores de pé-de-obra.

Um mundial diferente em tudo

Copa esquisita esta da África do Sul. Emergentes pouco cotados (Paraguai, Japão, Eslováquia, México) avançam. Somente um africano (Gana) conseguiu vaga nas oitavas – Costa do Marfim ainda luta, mas respira por aparelhos. Além disso, o campeão e o vice-campeão já estão de volta às suas casas.  

Diante de uma outra África do Sul

Um forte nevoeiro, por mais de 200 quilômetros, fizeram da viagem entre Johanesburgo e Durban (588 quilômetros) uma aventura e tanto. Com direito a bônus, como a exótica e deslumbrante paisagem do nordeste sul-africano. Foram, no total, mais de seis horas na estrada num percurso que normalmente dura quatro horas. Entre cenários de “Paris, Texas” e “Bagdá Café”, este escriba baionense conheceu uma África do Sul bem diversa do frio massacrante de Johanesburgo. O caminho que leva a Durban inclui vales, savanas e montanhas majestosas. Na chegada, a visão de uma cidade banhada pelo mar e cheia de praias é reconfortante para os olhos.

A chance do acerto de contas

O primeiro grande clássico da Copa vai envolver Alemanha e Inglaterra, duas seleções com grande tradição boleira e muitas contas a ajustar. Em 1966, como se sabe, a Inglaterra sagrou-se campeã e aquela conquista carrega até hoje a mancha de um erro da arbitragem, que validou gol irregular para os ingleses. A bola bateu no travessão e caiu rente à risca. O árbitro resolveu dar o gol, para desespero dos alemães e combustível para uma polêmica que se arrasta há quase meio século.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 25)

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