Conexão África (6)

Desfiles marciais não têm graça

Grandes jogadores garantem a qualidade dos espetáculos e a Copa, como evento máximo do futebol mundial, não foge a essa regra fundamental. Para tristeza dos fãs do jogo, alguns dos maiores craques contemporâneos nem vieram para a África do Sul. Abatidos pelas temporadas massacrantes nos clubes, estouraram músculos ou sobrecarregaram os joelhos, ficando pelo caminho. Dentre os que chegaram até aqui, muitos estão longe do ponto ideal. Temos, então, um cenário mais propício ao aparecimento de bons times, mas sem brilhos individuais.
Copas ganhas por seleções operárias costumam ser atiradas na vala comum dos torneios burocráticos, sem lugar cativo entre as Copas inesquecíveis. Dos torneios disputados na era moderna, quatro são emblemáticos dessa estiagem de talentos. O primeirão da lista foi o mundial de 1978, na Argentina. O craque mais mencionado daquela Copa foi Mário Kempes, um centroavante que viveu seu auge justamente naquele ano. Em seguida, desponta o torneio de 90, na Itália, vencido pelos alemães. A Copa dos EUA, em 1994, também foi sofrível. O único a se sobressair foi Romário, responsável direto pelo título brasileiro. Por fim, o certame de 2006 se inscreve entre os mais fracos, tecnicamente falando, da história.
A primeira Copa africana, cercada de grandes expectativas, não mostrou em seu primeiro dia nenhum indício de que vá ser um esplendor de criatividade. Pelo contrário, as quatro seleções que estrearam na sexta-feira primaram por um futebol previsível, de muita marcação e pouca inspiração. A França, campeã mundial em 1998, foi a maior frustração do primeiro dia de bola rolando na África do Sul.
Seu craque, Frank Ribery, perdeu-se no cerco firme dos uruguaios, sem esboçar qualquer recurso digno de um ponta. Nenhum drible ou arrancada
dos demais atletas que fizesse crer em desempenho excepcional do conjunto de Domenech. Gourcouff, apontado como substituto de Zidane, bem, é apenas… Gourcouff. Claro que a primeira impressão nem sempre é definitiva em futebol, mas permite fazer projeções. Dos demais competidores, o Uruguai foi o Uruguai de sempre, o que não é boa notícia. O México, idem, nada acrescentou ao que já se esperava. E a África do Sul, cujo esforço para fazer o mundial já é digno de todos os elogios, não pode ser observada com lentes críticas. É um time que vai tentar cumprir o papel de anfitrião da forma mais digna possível, nada mais que isso.
Há quem goste de times que funcionam como pequenos exércitos, mas estou naquele grupo saudosista que prefere um bom time liderado por craques. Nada que seja bagunçado ou individualista ao extremo, mas que permita que o torcedor vislumbre a centelha da arte. Não há espetáculo sem artistas inspirados. Desfiles marciais há muito tempo deixaram de ter encanto, pelo menos para mim.

Nem com o peso da Marselhesa

Experimentei a sensação de ouvir, das tribunas de imprensa, o hino francês antes de um jogo de futebol na Copa da Alemanha, justamente no confronto fatal das quartas de final em Frankfurt. Ouvir 40 mil vozes cantando os versos beligerantes da Marselhesa é uma experiência atordoante, de arrepiar. Até hoje tenho a impressão de que o Brasil começou a perder aquele jogo na hora da execução dos hinos. “Formai vossos batalhões/Marchemos, marchemos!/Nossa terra do sangue impuro se saciará!”… Palavras fortes, de dominação e extermínio de inimigos. Não é mole, não. Mas futebol exige time – e craque. Isso não há no escrete atual, daí o sufoco contra o apenas brigador Uruguai. E aí não há hino matador que dê jeito.

Uma Copa a cada três anos

Glauco Lima, craque da criação e grande amigo deste escriba, defende uma tese que considero cada vez mais ajustada à realidade do futebol. Ao invés de ser disputada a cada quatro anos, a Copa do Mundo devia acontecer de três em três anos. Motivo: dar mais oportunidade de consagração aos grandes jogadores, alguns levam tanta bordoada que não conseguem cumprir quatro anos de carreira em alto nível. Ronaldo, Maradona, Van Basten foram alguns excepcionais boleiros que tiveram a carreira prematuramente encurtada. O coroamento da profissão, que é a atuação numa Copa, nem sempre é possível para um jogador, cujo tempo de vida profissional raramente excede 10 anos. Com intervalo de três anos seria possível ter um supercraque disputando pelo menos três mundiais. Vantagem para ele, lucro para a humanidade.  

Sob o peso da coerência

Há quem aposte que Dunga, para enfrentar a frágil Coréia do Norte, vai mexer no time que tinha escalado anteriormente. A entrada inspirada de Ramires contra os tanzanianos teria mexido com a cabeça do treinador, que admite aproveitá-lo no lugar do antigo titular, Felipe Melo. Tenho cá minhas dúvidas. De tudo o que se ouve por aqui, uma verdade é imutável: Dunga não aceita sequer discutir a titularidade de seus eleitos, doa a quem doer. Portanto, mesmo contra os norte-coreanos, a maior barbada desta Copa, o time será o de sempre: Júlio César; Maicon, Lúcio, Juan e Michel Bastos; Gilberto Silva, Felipe Melo, Elano e Kaká; Luís Fabiano e Robinho.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 13)

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