Conexão África (4)

Boatos e dúvidas, mistério e alívio

A impressão de que Júlio César havia deixado o treino da Seleção Brasileira com dores nas costas dominou o noticiário de boa parte do dia em Johanesburgo, pelo menos entre os brasileiros. Acenderam-se de imediato todas as luzes de desconfiança quanto ao estado físico do goleiro e até mesmo sobre sua presença no jogo de estreia contra a Coréia do Norte. Ledo engano. Na movimentação da tarde, Júlio César só faltou voar nas bolas, demonstrando estar em perfeitas condições.
As dúvidas, perfeitamente normais, foram alimentadas pela separação (não só física) estabelecida entre os jogadores e a imprensa brasileira. A comissão técnica só se comunica em dias marcados e as entrevistas diárias são um primor de desinformação, como escrevi ontem. Nada de significativo é revelado, apenas insinuado. Os treinos são captados léguas de distância pelas poderosas lentes das câmeras de repórteres fotográficos e de TV, mas os campos de golfe afastam qualquer possibilidade de contato mais próximo. Num ambiente de total desencontro nos corredores do hotel Randburg Park (fachada ao lado), o mistério predomina. Qualquer boato provoca um corre-corre medonho.
Até nessas horas os métodos antiquados de relação com a imprensa conspiram contra o Brasil. O problema com o goleiro foi o primeiro susto vivido pela Seleção, embora seu substituto imediato esteja pronto para entrar. Se fosse uma substituição temporária, Gomes seria a alternativa natural, até porque entrou (muito bem) nos dois últimos amistosos de preparação.
O incrível dessa história toda é que o Brasil normalmente não se preocupa com goleiros. Ao tratar de futebol, pensamos de imediato nos jogadores de frente. Defesa é, quase sempre, um problema de segunda ordem. Em outros tempos, todas as atenções estariam depositadas nos homens de ataque ou meio-de-campo. Nesta Copa, entre tantas outras coisas diferentes, a defesa é prioritária para os planos da Seleção Brasileira. Nos três anos e oito meses de gestão Dunga, nenhum outro setor do time funcionou tão perfeitamente quanto a zaga. E Júlio César é parte fundamental desse sucesso. Fazia muito tempo que o Brasil não tinha um goleiro avaliado como melhor da posição no mundo. Em excepcional forma, o ex-rubro-negro ajudou a Inter a conquistar a Liga dos Campeões da Europa. Sai bem do gol nos lances aéreos e é quase intransponível debaixo das traves.
Sua ausência lá atrás desmancharia boa parte do sólido desenho defensivo montado por Dunga, que encontra complemento nos beques Lúcio e Juan e vai até os volantes Gilberto Silva, Felipe Melo e Elano. Seria uma perda considerável, inclusive no aspecto do entrosamento e da confiança que todo time deve ter em seu goleiro. Em 70, Félix não era unanimidade nacional, mas seus colegas de Seleção confiavam piamente nele. Jairzinho, Carlos Alberto, Gerson e até Tostão já falaram sobre isso, o que avaliza definitivamente o conceito. Ainda bem, portanto, que o goleiro titular está garantido na Copa.

Outra que aposta na Fúria

Os jornais espanhóis estão babando de pura felicidade desde que Arsene Wenger decretou, em entrevista aqui em Johanesburgo, que não há favorito maior ao título desta Copa que começa hoje. Aficionado do futebol-espetáculo, amante do drible e das táticas ofensivas, o francês que comanda o Arsenal não economizou superlativos para definir o time de Vicente Del Bosque. Para ele, a Espanha é hoje uma seleção de outro planeta. (Quanta inveja a gente sente ao ouvir isso, nós que já merecemos inúmeras vezesesse tipo de adjetivação). Acredita que a Fúria vai ganhar a Copa, mas admite que ingleses e holandeses também podem chegar lá. Sobre o Brasil, uma ligeira hesitação antes de ressalvar qe somos sempre favoritos em todas as Copas. Educado e hábil esse Mr. Wenger.

Festa para o white people

A grande discussão do dia na África do Sul, pelos jornais e em programas de TV, foi a escolha de grupos e artistas internacionais, como Shakira e Black Eyed Pies, para a festa oficial de abertura do evento. Não deixa de ser curioso que, justo na primeira Copa essencialmente africana, tenha prevalecido um gosto musical globalizado, mais ao sabor das grandes corporações musicais do planeta – que, felizmente, agonizam diante do fiasco do modelo das gravadoras ante a expansão de downloads e outros sistemas de captação de música.
E se os escolhidos fossem legítimos representantes da música negra no mundo, ainda vá lá. Mas Shakira só flerta com os ritmos negros como forma de propagar seu pop de inspiração latina. O Black Eyed Pies tem negros na banda, obviamente, mas produz música de corte albino. Como dizem os moradores aqui de Booysens, a festa não é dos negros, é do “white people”. Dona Fifa perdeu boa oportunidade de valorizar ainda mais o lado cultural da terra de Miriam Makeba. Curioso é que Shakira parece ter adquirido a franquia para os eventos relacionados com a Copa do Mundo. Em 2006, foi a atração do show de encerramento da Copa da Alemanha. Se a moda pega, acaba destronando o pessoal do axé e do breganejo no Mundial de 2014. Valha-nos quem?, como diria o Comendador Raymundo Mário Sobral.

Mexicanos cada vez mais animados

Em nosso hotel, hospedam-se alguns torcedores mexicanos. Não disfarçam a confiança cega na vitória hoje diante da anfitriã África do Sul e um baita otimismo quanto ao restante da Copa. O empresário Juan Antonio Olivares, ao lado da mulher Isabel, diz que a seleção de Blanco e Geovani dos Santos passa sem problemas pelos Bafana-Bafana e segue, sem sustos, até as quartas de final. Título? Aí ele dá um sorriso meio tímido antes de dizer que tudo é possível. Há poucos dias, no Centro de Imprensa, topei com jornalistas igualmente entusiasmados com o México. Continuo cético, por pura lógica futebolística, mas sabemos que os homens são movidos pela fé.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 11)

Um comentário em “Conexão África (4)

  1. 1. Felix talvez nao tivesse rival, possivelmente o Ado, ja que Leao era inexperiente.
    2. De outro planeta a Espanha? Imagina o Brasil de 82.
    3. Futebol e surpreendente, mas se o Mexico jogar o que jogou semana passada contra a Italia, passa facil pra segunda fase.

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