Um amistoso desnecessário

Por Júlio Gomes (de Joannesburgo)

O Zimbábue é o último país da lista dos países. Em qualquer que seja a lista, seja a de nacões do mundo, a de filiados da Fifa, qualquer uma, eles estão sempre em último. Na lista alfabética, logicamente. A tristeza é que eles estão entre os últimos também em qualidade de vida, emprego e liberdade. São 12 milhões de habitantes vivendo sob ditadura – há eleições, mas para inglês ver. É um país com renda per capita de míseros 340 dólares. Robert Mugabe é o cidadão que comanda o Zimbábue desde o começo dos anos 80. Comandou a luta pela independência do país e surgiu como um desses grandes líderes que a África poderia produzir. Acabou dizimando a oposição, tornando-se um desses ditadores sanguinários que a África costuma produzir.

Hoje, o país tem 10% da população infectada pelo HIV (20% entre jovens e adultos). A expectativa de vida é de 43 anos para os homens, 44 para as mulheres. A Anistia Internacional acusa o governo de violar o direito a moradia, comida, liberdade de movimento, além de muitos relatos de violência contra imprensa, ativisitas e defensores dos direitos humanos. A inflação em agosto de 2008, antes de a economia ser dolarizada, foi de 11.200.000.000%. Em 2009, inventaram a nota de 100 trilhões!! Isso logo antes de eliminarem 12 zeros da moeda. Nossa hiperinflação dos anos 80 era fichinha perto dessa. Taxa de desemprego? 95%, a maior do mundo. Uau.
É nesse lugar que o Brasil vai jogar quarta-feira.

Hoje, conversando com jornalistas, Rodrigo Paiva, Diretor de Comunicações da CBF, ficou bravo quando questionado sobre o tom político que o jogo poderia ter. “Nós náo jogamos para governo nem para ditador, jogamos para as pessoas. Como vamos privar pessoas, já tão sofridas, de ver a seleção brasileira? Vocês não se lembram no Haiti, a alegria que demos para aquele povo quando passamos por lá?”. Com todo respeito. Mas logicamente a seleção não vai ao Zimbábue por uma razão de humanidade.
Vai porque a essa altura do campeonato é difícil arrumar amistosos e eles têm que ser escolhidos a dedo. Não podem ser jogos difíceis, para não aumentar a pressão sobre técnico e jogadores, e nem pode ser longe daqui. Aparece o Zimbábue, esse país riquíssimo, como eu citei, oferecendo dinheiro para a CBF (US$ 1,3 milhão, segundo fontes internacionais). E lá vamos nós. “Não há nenhum compromisso agendado com nenhum político”, garante Paiva.
Mas é óbvio que Mugabe vai ao estádio e tentará capitalizar em cima da presença do Brasil.
A Seleção pode até não querer. Pode até ser involuntário – e acho mesmo que é. Mas acabará ajudando, de alguma forma, um sanguinário. E essas coisas precisam ser avaliadas antes de ser assinado o acordo para jogar uma partida dessas. A CBF vai receber um dinheiro sujo de sangue para levar ao Zimbábue alguns dos melhores jogadores de futebol do planeta.
Esportivamente, pode até ter sentido. Moralmente, é um erro.

5 comentários em “Um amistoso desnecessário

  1. Está parecendo aquele amistoso preparativo às vésperas do mundial de 1998 contra a fraquíssima seleção de Andorra, formada apenas por profissionais liberais . Aguardemos os resultados.

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  2. A ONU e a FIFA não levam em conta os dados estarrecedores do Zimbabue. Continuam tendo o país como Estado membro e filiado. Quanto ai dinheiro sujo de sangue nao esqueçamos que já recebemos de outras procedencias.

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