O safanão do homem decente no safadão

Por Paulo Cezar Guimarães

Acho que foi naquele dia que despertou minha vocação para repórter. Era 1972 e eu tinha apenas 19 anos. Estava na arquibancada do Maracanã quando vi meu Botafogo ser prejudicado mais uma vez por causa de um erro de arbitragem. O beneficiado da vez era o Atlético Mineiro. Fim de jogo. Vi um homem de calça preta e camisa branca sair sorrateiramente do vestiário do Botafogo em direção ao vestiário do juiz, do outro lado de onde eu estava. Ele correu pelo lado esquerdo do campo, eu pelo lado direito da arquibancada. Chegamos praticamente juntos. Ele fez o que eu gostaria de fazer, eu comemorei como se fosse um gol do Botafogo. Juro que ouvi o barulho do safanão e vi o safadão despencando no túnel. Fui para casa sem saber quem era aquele meu novo heroi alvinegro.

Naquele tempo ainda não havia internet e só no dia seguinte fui saber que tinha sido Nilton Santos, à época dirigente do Botafogo, o autor da agressão. A foto, de José Santos, do Globo, recebeu o prêmio Esso de Fotografia no final do ano. Alguns anos antes, ainda como jogador, o mesmo “Armandinho”, como era conhecido, colocou, como era do seu estilo, o dedo na cara de Nilton Santos, após marcar um pênalti inexistente contra o Botafogo num jogo contra o Corinthians no Maracanã. “Escureceu e dei-lhe uma porrada”, contou o próprio Nilton Santos, em “Minha bola, minha vida”, seu livro de memórias. E explicou a atitude:

“O fato era que esse senhor era muito abusado, gostava de dar seu show particular para as torcidas. E eu não podia consentir aquilo. Era um homem decente, o Pacaembu estava lotado. Além do mais tinha um filho assistindo o jogo, em casa. Já pensaram, eu chegando em casa, ele me cobrando uma atitude que eu deveria ter tomado em campo? Não ficaria bem para mim”.

Como sou diferente do Dunga, que disse, ao divulgar os convocados para a seleção brasileira, que não sabia se a escravidão e a ditadura militar eram boas ou ruins porque não tinha vivido a época, afirmo mesmo sem ter visto Nilton Santos jogar: “Ele foi o melhor lateral esquerdo de todos os tempos”. Tenho muitos motivos para acreditar. Um deles está nesse mesmo livro de memórias de Nilton Santos. Na chamada “orelha”, assinada por Sandra Moreira, filha do saudoso Sandro, botafoguense histórico.

“Eu só fui compreender a grandeza do futebol de Nilton Santos mais tarde. E foi assistindo aos filmes e vídeos de jogos do Botafogo ou da seleção brasileira que pude entender o significado da frase que meu pai escreveu num disco de Ella Fitzgerald, um velho vinil que guardo até hoje. Embaixo do título “Ella Fitzgerald interpreta Colle Porter”, ele acrescentou: “com a mesma facilidade com que Nilton Santos jogava futebol”.

Nilton Santos sabia das coisas dentro das quatro linhas. Sandro Moreira sabia de tudo quando mexia com as “pretinhas” (teclas da máquina de escrever, na linguagem de redação). É por isso que não me arrependo de ter seguido a minha vocação: ser botafoguense e ser jornalista.

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