Passarinho desconstrói Geisel

Por Maria Inês Nassif e Paula Simas, de Brasília – do Valor Econômico

Jarbas Passarinho, 90 anos: para ex-ministro, no governo Geisel houve uma política de Estado de extermínio de adversários quando os militares já haviam feito a limpeza da guerrilha urbana

O aniversário de 46 anos do golpe de 1964, neste 31 de março de 2010, encontra o coronel da reserva, ex-ministro e ex-senador Jarbas Passarinho com 90 anos. Mesmo debilitado por um longo período de doença – uma septicemia que se seguiu a uma pneumonia valeu a ele uma estada na UTI e três momentos em que a morte quase bateu à porta -, Passarinho mantém uma surpreendente lucidez. Retoma quase do mesmo ponto uma conversa que teve com as repórteres oito anos atrás, quando expôs seu grande incômodo pela maneira como a história enxerga os governos dos generais-presidentes Costa e Silva (1967-1969), Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) e Ernesto Geisel (1974-1978).

Para a história, segundo ele, os dois primeiros (aos quais serviu como ministro) ficaram como governos duros – como se as atitudes tomadas por ambos decorressem de uma vontade pessoal ou do espírito antidemocrático dos dois. Do último ficou a impressão de que era alguém com grande espírito democrático – e que, dessa forma, se contrapunha aos dois governos anteriores. O ex-ministro praticamente sugere uma inversão da maneira como a história deve ver cada um desses personagens.

Passarinho propõe uma releitura que, se não consegue atenuar o conteúdo das decisões dos presidentes Costa e Silva e Médici que foram interpretadas pela história como antidemocráticas, de outro recoloca Geisel na história como um presidente particularmente duro. Para o ex-senador, Costa e Silva foi o responsável pelo AI-5, embora a decretação do ato tenha ocorrido por pressão militar, não pela convicção pessoal daquele presidente; da decisão de Médici de dar autonomia ao aparelho de repressão decorreram o descontrole e a tortura generalizada, embora tivesse deixado claro antes a seus auxiliares que não concordava com a tortura. Mas, segundo Passarinho, no governo Geisel houve política de Estado de extermínio de adversários quando os militares já haviam feito, na gestão anterior, a limpeza da guerrilha urbana, que era o que efetivamente ameaçava o regime militar.

Uma decisão presidencial, a de Geisel, eliminou fisicamente a guerrilha rural que estava isolada e matou vários dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que nunca pegou em armas contra o regime. “Uma ordem para não fazer prisioneiros só podia vir do presidente da República, de mais ninguém.” Passarinho define as políticas de Estado que endureceram o regime nos governos Costa e Silva e Médici como reações a ações da esquerda armada. O fato de o poder não ter sido entregue aos civis no período pós-Médici, governo que exterminou a guerrilha urbana e entregou ao sucessor a guerrilha rural – do Araguaia – totalmente isolada, foi, para ele, um ato autoritário de Geisel. “Eu tenho a triste impressão de que a guerrilha do Araguaia foi utilizada como pretexto para continuar o regime autoritário”, disse, há oito anos.

“Não havia, do meu ponto de vista, a menor razão para continuar um processo autoritário por causa da guerrilha do Araguaia [1969-1975, do PCdoB]. Era um movimento inexpressivo. Ali era uma área que, cercada, poderia resultar até na morte por fome dos guerrilheiros”, disse, na primeira entrevista. “Era um grupo de 60 pessoas completamente isolado, rompido com a União Soviética, rompido com a China de Mao Tsé-tung e apenas apoiado pela Albânia, que era o pior país em matéria de PIB da Europa”, reiterou.

(…)

Foi a convicção de que a luta armada da esquerda não constituía mais nenhum risco ao regime que levou Passarinho, no processo de escolha do sucessor do presidente Médici, a defender a entrega do poder para os civis. “Num dia qualquer de 1973, em janeiro ou fevereiro, procurou-me o meu colega de ministério Costa Cavalcanti [Passarinho era ministro da Educação]. Ele me perguntou: você tem alguma coisa contra o Geisel? Eu falei: olha, não tenho nada contra o Geisel, mas sou a favor de que, quando chegar ao fim do ano de 1973, o presidente Médici entregue o poder aos civis”, relatou.

O ex-senador teria defendido, na época, a candidatura de Leitão de Abreu, ministro da Justiça que, na sua opinião, teria sido eleito até pelo voto direto, na esteira da popularidade de Médici. “O Ronaldo Costa Couto entrevistou o nosso famoso presidente, que então era líder sindical, o Lula, em 1989, e o Lula disse que Médici ganharia qualquer eleição que disputasse. Costa Couto perguntou por que e Lula disse: ‘Porque na época nós, trabalhadores, escolhíamos o emprego que quiséssemos’.”

(…)

Duas horas depois de uma segunda entrevista – separada por oito anos da primeira -, Passarinho dá mostras de cansaço. A filha, Júlia, já ligou duas vezes. “É a policial da família, não queria que desse entrevistas”, diz, rindo muito. Ele se declara exausto. Mas continua falando por um tempo. Mais uma história, que puxa a outra – o ex-ministro adora contar histórias com todos os detalhes, como aquela que começa com a descoberta de um d. Helder Câmara ainda integralista, quando estava no colégio, em Belém, e termina com uma negociação secreta com o já bispo de esquerda, em Crato (PE), para evitar que uma greve de trabalhadores se alastrasse pelo Estado, quando era ministro do Trabalho.

E termina com a última: de como uma carta apócrifa, que atribui ao SNI de Golbery, tentava acusá-lo de corrupção por causa da venda de um apartamento, quando era ministro de Médici. Segundo ele, não teve nenhuma dificuldade para desmentir a acusação, já que o apartamento e a casa onde ainda hoje mora foram os únicos patrimônios adquiridos ao longo de toda a sua vida pública. Mas, deixa claro, ficou o ressentimento.

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15 comentários em “Passarinho desconstrói Geisel

  1. Trata-se de uma decisiva (?!) e edificante (?!)contribuição para o estudo do autoritarismo nacional – não podemos dormir hoje sem concluir algo sobre isso. Quem dirigiu o regime mais totalitário da história contemporânea? Stálin ou Hitler?
    Entre Geisel e Médici eu fico com Chico Xavier.

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  2. Conheço Jarbas Pasarinho desde os meus tempos de moleque no bairro do telágrafo, ele foi amigo pessoal de meu saudoso avô que foi assessor da presidencia da CDP, posso dizer que pessoalmente ele é uma pessoa muito boa, o que me faz ficar sem poder tercer comentários bons ou maus sobre ele. Entretanto, lendo essa reportagem posso afirmar duas coisas que percebi: Rancor e Decepção.

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  3. Na minha opinião Jarbas Passarinho foi uma lástima para com a classe estudantil em geral e, principalmente, para com os paraenses, por conta de uma querela política com o outro milico não menos prejudicial chamado Alacid Nunes.
    Diz-se que, na época de ministro, e o outro governador, houve uma severa retaliação ao Estado do Pará na questão dos repasses de verbas federais.
    Coincidência ou não, quem se detiver um pouquinho na história de Belém, perceberá o quanto nossa cidade já foi forte, se comparada a Manaus, São Luis, Fortaleza… Hoje Belém está atrás de todas essas capitais.
    Nos dias de hoje, quando a sociedade vive num regime de estado de direito, fica difícil acreditar nessas mazelas, no entanto, naqueles tempos de autoritarismo estes senhores tudo podiam.

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  4. Sabe que eu não tenho nada contra os militares, por uma questões simples : Os militares construíram Petrobrás, a telefonia (que valia 40 milhões e foi entregue por 13 milhões). Construíram a Vale do Rio doce, que foi entregue por 3 milhões e que dava um lucro de 750 milhões anuais, mesmo ela sendo um cabide de emprego. Em outras palavras, os militares construíram empresas e esses democratas do PSDB as venderam. Sabem de quem é a OI? do Senador Jereissat, amigo de FHC, com o dinheiro do DNDS, como também foi a Vale. Quem é pior? comparem! Não vou nem falar em CELPA porque… vou vomitar de ódio, tanto que nem posso ver rato…..

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    1. A Celpa vai ser federalizada!! É só uma questão de tempo!

      Trabalho na Eletrobras, e a intenção do governo Federal, é federalizar todas as distribuidoras.

      Semana passada a CELG de Goiás já foi comprada.

      A Eletrobras vai comprar : Celpa, Cemar, Celtins, Cemat e Coelce. Ficando no total, além das citadas, a Amazonas energia, CEAL (alagoas), Eletroacre, Ceron (rondônia), Cepisa (piauí), Boa vista Energia.
      a tendência é essa. A CEMIG comprou a Light.

      Quem sabe assim essas distorções comecem a acabar.

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  5. Realmente o Coronel Jarbas Passarinho é uma pessoa muito inteligente e culta, mas sempre usou os cargos que ocupou para beneficiar parentes e amigos, aliás como todo político, esquecendo de fazer como o Sarney fez no Maranhão, que sempre puxou a brasa para sua sardinha. Ele, Jarbas, quiz ser sempre mais um notável brasileiro, do que um ilustre paraense, o que na verdade não é.

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  6. Caro Berlli,
    Seu comentário procede, porém está fora de contexto, já que o assunto é sobre ditadura militar.
    Já que citou o Manoel Ribeiro (por quem não faço a menor deferência), deveria também citar aquele seu adorado que saqueou a Sudam para ajudar o paissandu, para depois buscar tudo de volta.

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  7. Seu comentário sobre o gatuno da Sudam, também procede, menos o qualitativo “adorado”. Uma curiosidade nisso tudo é que não imaginaríamos que no futuro o irmão do “coronel” Manoel Ribeiro, tomaria posse da presidência do Remo para dar início à desmontagem que ele (MANOEL) muito contribui para a história do clube e RR feito um sucessor a altura.

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