Pensata: Bento 16 e a pedofilia

Por Deonísio da Silva (do Observatório da Imprensa)

A revista alemã Der Spiegel pediu nada mais nada menos do que a abdicação do papa Bento 16. Motivo: suposta omissão em escabroso caso de pedofilia. O padre americano Lawrence Murphy admitiu que abusou de cerca de 200 crianças surdas da escola St. John´s para surdos no Wisconsin (norte), nos EUA, entre 1950 e 1974.

Arthur Budzinski, hoje com 62 anos, informou ao arcebispo de Milwaukee, William Cousins, e a outras autoridades sobre os fatos em 1974, mas Cousins respondeu com gritos, o que fez com que saísse “da reunião chorando”, contou. O então cardeal de Milwaukee, Rembert Weakland, e outro bispo do Wisconsin escreveram “diretamente ao então cardeal Joseph Raztinger”, hoje Bento 16, que não respondeu à carta, informou o New York Times.

O teólogo Hans Küng foi duro nas críticas ao sumo pontífice, como duro sempre soube ser nas réplicas às perseguições sofridas quando a cúria investia contra ele em décadas anteriores. Küng é o Leonardo Boff da Alemanha, o Joseph Comblin da Bélgica, o Ernesto Cardenal da Nicarágua, todos padres que se tornaram alvo das inquisições que na cúria romana eram patrocinadas pelo então cardeal Joseph Ratiznger, nome civil do atual papa, que dali comandava a poderosa Congregação para a Doutrina da Fé.

Quando ainda cardeal, por ser tão cioso das defesas da fé, perseguiu tanto o teólogo Leonardo Boff, que levou o papa João Paulo II a condenar e pressionar o frade franciscano de tal modo que ele não teve outro jeito senão abandonar o sacerdócio e a ordem a que pertencia, mesmo com todo o apoio de dom Paulo Evaristo Arns. E João Paulo II fez mais: repreendeu publicamente Ernesto Cardenal durante a visita que fez à Nicarágua, diante de gigantesca multidão que recebeu e vaiou o papa.

Por que a pedofilia não vinha merecendo os cuidados de Bento 16?

A pedofilia é muito antiga, mas é recente na língua portuguesa. Aparece apenas nos finais do século 19, no Novo Diccionario da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo.

Não estranhem o viés deste comentário. Para um homem de Letras, o berço das palavras pode revelar indícios percucientes de problemas que, por sua própria natureza, como é o caso da pedofilia, ensejam uma série de artifícios de ocultamento e de disfarces.

Explico melhor: faz poucos anos que o dicionário Aurélio, um dos mais consultados do Brasil, dava, no verbete “mulher”, equivalências de significado que remetiam mais de dez vezes a prostituta. Depois de diversas teses defendidas sobre o assunto (de uma delas fui membro da banca examinadora, na USP), o próprio Aurélio mudou a redação do verbete. Deixei registrada num conto intitulado “Mulheres Abandonadas”, no livro Cenas Indecorosas (1976), a minha inconformidade. Em antigas edições do Aurélio, o leitor pode confirmar o que estou afirmando.

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