Coluna: Falta o talento pagão

Em nível brando, por enquanto, prospera um clamor pela convocação de jogadores habilidosos para a Seleção. Sente-se falta do craque na real acepção do termo. Temos banzo daquele tipo de atleta que combina técnica (domínio dos fundamentos do jogo) e talento natural, a tal ginga brasileira tão invejada em todo o planeta.
Costumo dizer que no Brasil as cobranças são maiores porque conquistas são maravilhosas pela própria natureza, mas têm o lado chato de impor responsabilidades. Uma potência do futebol, detentora de cinco títulos mundiais, não pode se permitir qualquer deslize na grande celebração do esporte que é a Copa do Mundo.
Ninguém perdoará uma apresentação molambenta do país pentacampeão. Todos esperam que o Brasil brilhe, encante, transcenda – enfim, que seja o Brasil de sempre, afeito ao drible e especialista em gols bonitos. Ninguém paga ingresso para ver times brasileiros retrancados e violentos. 
Por isso, o técnico responsável pelo escrete deve ter a exata noção do seu papel. Não é uma função destinada a almofadinhas e vaidosos. Requer a presença de um profissional gabaritado, que saiba tudo de futebol e compreenda os anseios e expectativas da exigente torcida.
Vem daí a minha incompreensão quanto ao mau humor característico dos técnicos recentes da Seleção. Nesse aspecto, Dunga não está sozinho. Tem boa companhia. Zagallo (74 e 98), Coutinho (78), Lazaroni (90), Parreira (94 e 2006), Scolari (2002). Nem o mestre Telê Santana escapou a essa desdita: vivia abespinhado, amargo, pronto a saltar na jugular de quem cobrasse pontas na Seleção em 1982, mas merece perdão por ter montado uma belíssima equipe de futebol.
 
 
Dunga, que não carrega as neuroses de guerra da profissão de treinador, exaspera-se ao menor sinal de uma pergunta mais crítica. Resmunga, esboça ironia e fúria, tenta dar lições aos jornalistas. Fico com a quase certeza de que não curte a tremenda honra de dirigir a Seleção Brasileira. Deveria ser o ápice da carreira, a glória suprema. Dunga age como se a missão fosse um fardo pesadíssimo e torturante.
Nos últimos dias, distribui coices verbais cada vez que alguém fala em Ronaldinho Gaúcho, Neymar ou Diego, coincidentemente três jogadores que tratam a bola com intimidade. Declarou guerra ao talento, não há outra explicação. Agarrou-se ao pretexto da lealdade do “grupo” para descartar novas convocações.
Quando cutucado, saca do coldre critérios baseados no comportamento dos jogadores. E se atrapalha mais ainda, pois fica esquisito falar em disciplina espartana quando se tem Adriano e Robinho no time. Desconfio que Dunga faria mais por si mesmo se abrandasse a fúria moralista e temperasse essa seleção de beatos com algum talento pagão. A heresia iria beneficiar gente como Ronaldinho, Neymar e Diego. E os deuses da bola certamente agradeceriam.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 5)

2 comentários em “Coluna: Falta o talento pagão

  1. Desconfio e muito do time de Dunga e de suas formas de administrar o selecionado e sua rel. com todos da midia.
    Dunga e’ uma invencao da CBF, como muitos no passado.
    Sobrou para nos adeptos, os contras-ataques.

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  2. SR.GERSON,SOBRE OS TALENTOS QUE ESTÃO FICANDO RAROS VC JÁ VIU UM TREINO DA DIVISÃO DE BASE DO PAYSANDU. DEUS O LIVRE SE UM GAROTO ARRISCAR UMA JOGADA INDIVIDUAL É LOGO CHAMADO A ATENÇÃO DE MANEIRA RISPIDA. NÃO PRENDE A BOLA SÓ DOIS TOQUES NA BOLA, OS QUE TEM MAS HABILIDADE SÃO PRETERIDOS PELOS DE MAIORES INVERGADURA, TRATAM FUTEBOL COMO SE FOSE BASKETE, AI O GAROTO CHEGA NO SUB 20 COMPLETAMENTE SEM ABILIDADE SÓ CORRERIA SEM NOÇÃO DO QUE FAZER QUANDO ESTA SÓ COM A BOLA O PRESIDENTE NÃO DEVE ACABAR COM O SUB 20 E SIM COM ESSA COMISSÃO TECNICA QUE TRABALHA DE MANEIRA COMPLETAMENTE ERRADA.
    OBS O LEMA DELES NÃO É REVELAR ATLETAS E SIM GANHAR CAMPEONATO QUE NÃO DÁ NEM UM LUCRO PRO CLUB.

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