O Brasil ganhou tudo que disputou sob o comando de Dunga e o sonho do hexa é perfeitamente possível. Os resultados, incontestáveis, garantiram a permanência do ex-capitão da Seleção no cargo, apesar da implacável oposição no começo das Eliminatórias sul-americanas. Caso a equipe mantenha a postura objetiva, vencendo quando precisa, mesmo sem dar espetáculo, o êxito está praticamente garantido na África do Sul.
Mas que ninguém se iluda: o Brasil de Dunga vai pregar muitos sustos, exigindo de Júlio César novos milagres e impondo altas doses de sofrimento ao torcedor. A rigor, somente Kaká, Robinho, Daniel Alves, Adriano e Nilmar podem ser avaliados como acima da linha do horizonte que separa os bons de bola dos medianos.
A respaldar essa impressão registre-se outra vez o tom claramente vingativo que marca a trajetória de Dunga na Seleção, única justificativa para tanto menosprezo por jogadores de habilidade no meio-campo. Esse sentimento voltou a aflorar na penúltima convocação antes da Copa do Mundo, divulgada ontem. Ronaldinho Gaúcho, cotado para voltar ao escrete, foi descartado e é improvável que tenha nova chance.
Curiosamente, o técnico preferiu chamar Kléberson, campeão do mundo em 2002 (como o Gaúcho) e atualmente no Flamengo. Meia por formação, Kléberson joga como um volante adiantado, apoiando e fazendo transição, mas carece dos recursos técnicos de Ronaldinho e de bagagem para atuar na criação. Dunga lembrou, ainda, de Gilberto, que voltou da Alemanha para encerrar carreira no Cruzeiro como ala disfarçado de meia.
Resulta dessa combinação de volantes com falsos meias uma meia-cancha burocrática, essencialmente marcadora. Há, a rigor, apenas o talento de Kaká, que é mais um condutor de bola do que meia-armador dado a lançamentos. É provável que o Brasil de Dunga tenha na Copa sul-africana um quadrado de meio-campo ainda mais travado que o de 1994: Gilberto Silva, Felipe Melo, Ramires (Josué) e Kaká.
É um desalento constatar que, nas últimas Copas, o Brasil bom de bola, de Gerson-Didi-Zico-Ademir da Guia-Falcão-Sócrates, saudado em prosa e verso aos quatro ventos, não consiga arranjar pelo menos um camisa 10 típico, criador por excelência, para reger a orquestra. Dunga, que compreensivelmente adora escalar volantes, só faz confirmar essa tendência. E o pior é que existem bons meias (Diego, Alex, Ganso, Iarley…) por aí. Infelizmente, o setor mais decisivo do time exige a presença de craques. Sem eles tudo fica mais difícil e enfadonho.
Vejo o Paissandu em vantagem para o jogo desta noite, em Currais Novos. Está bem mais animado depois do Re-Pa e pode ter a novidade de Didi no ataque, ao lado de Moisés. Só não pode cair na tentação da retranca.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 10)
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