Coluna: Os brutos também torcem

O trágico incidente que vitimou o jogador Salvador Cabañas, dentro de uma boate na Cidade do México, reabre o debate sobre os limites da paixão no futebol e a linha divisória que separa torcedores e ídolos. Em dezembro, um episódio também violento envolveu Vagner Love, ainda no Palmeiras, que foi agredido por integrantes de uma “torcida organizada” quando saía de uma agência bancária em São Paulo.
Na contramão do processo de profissionalização do futebol, cada vez mais encarado como negócio, as torcidas adotam atitudes primitivas. Desde a eclosão das batalhas dos hooligans ingleses é crescente o conflito entre o sentimento dos aficionados e a frieza dos artistas do espetáculo, regiamente remunerados nos níveis mais elevados.
Antes, essa diferença de expectativas se restringia a discussões de arquibancada, mesa de bar e ambiente de trabalho. Era uma guerra não declarada que, pela distância entre as partes, jamais chegava a acontecer. Afinal, o jogador é um profissional, um trabalhador como qualquer outro. O torcedor tem dificuldades em compreender isso porque suas atitudes são sempre determinadas pela paixão.
Desconfio que o fenômeno da internet, revolucionário pela própria natureza, com incontáveis blogs e portais de discussões on-line, virou de ponta-cabeça esse cenário. O inacessível de antes agora ficou próximo.
O torcedor, que só podia se manifestar através de xingamentos que quase ninguém podia ouvir nos estádios, agora exprime suas opiniões livremente para um amplo espectro de pessoas. Longe de arrefecer ânimos e apaziguar espíritos, o território da web parece acirrar comportamentos belicistas.
Basta rápida olhadela nas salas de bate-papo das comunidades futebolísticas para constatar que, sem exagero, vive-se um clima de pré-conflagração armada. O tradicional (e sadio) sarro entre torcedores foi substituído pelo tom amargo e raivoso dos jabs verbais.
É como se o ambiente virtual instigasse ainda mais ressentimentos e cutucasse as feridas emocionais, que tantas vezes encontram no futebol desculpa e abrigo. Não se está falando mais do civilizado confronto de ideias entre adversários, mas do embate encarniçado entre inimigos. Assiste-se à absoluta negação do espírito pacifista que deveria mover desportistas. A triste história de Cabañas, ferido quase mortalmente por um torcedor contrariado, é a triste confirmação desses novos (e bárbaros) tempos.
 
 
O Remo, calibrado por duas boas vitórias, recebe o Santa Rosa com ar de favorito. Tem Marciano, que fez dois gols em 45 minutos. Repete a dupla de criação, Gian e Vélber. E há a torcida, sempre influente. São bons trunfos, sem dúvida, mas é preciso observar o quanto as equipes da primeira fase têm criado dificuldades. Estão entrosadas e com melhor ritmo de jogo. Por tudo isso, não creio em facilidades para o Leão.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 31)

3 comentários em “Coluna: Os brutos também torcem

  1. Muito do que acontece no mundo do futebol é criado pela imprensa. Os arquétipos da bola são imaginados por nós (jornalistas). O caso Cabanas tem um forte elemento passional ao que parece.
    O caso Love não. Este caso pode (?) ser produto do inconsciente coletivo

  2. Este comentário do Tavernard é coerente com que tem sido divulgado a respeito. O jogador teve um filho com uma ex-ganhadora do “Bing bosta” mexicano, inclusive não reconhecendo a paternidade. O atual namorado da encrenca é o maior suspeito.

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