Pensata: Sobre mantos profanados

Por Eduardo Vieira da Costa (*)

Em quase todo começo de temporada, por poucas rodadas, é possível ver como eram bonitas as camisas de futebol. Isso porque equipes que começam o ano negociando novos patrocinadores entram em campo com uniformes limpos. Dispenso aqui o uso de aspas no adjetivo, já que, a meu ver, o excesso de logomarcas estampados nas camisetas mancha efetivamente a imagem do time.

As camisas de Flamengo, São Paulo e Santos neste início de ano impressionam pela beleza da simplicidade. Em que pesem pequenos detalhes: o Santos vem prestigiando a WWF, de forma beneficente, mas a camisa ficou bonita e equilibrada com o logo da ong; o São Paulo tem patrocínios nas mangas, mas bastante discretos; o Flamengo tem a camisa toda limpa, mas insiste num design estranho na região da gola. De toda forma, as três camisas são belas porque destacam antes de tudo o clube. Despertam um ar nostálgico. Fazem lembrar o tempo em que abadás eram usados apenas no carnaval.

Antes que me acusem de ingenuidade, admito que é impossível um time hoje querer abrir mão dessa receita. Mas sujar a camisa com até cinco patrocínios me parece um absurdo. Não é bom para a imagem do clube e nem para quem paga para ter seu nome exposto. Já que é necessário colocar o patrocinador na camisa, que pelo menos haja bom gosto. O patrocínio não precisa destoar com cores berrantes e nem ser enorme para ter efeito.

Os grandes clubes europeus, em geral, conseguem estampar marcas de empresas em seus uniformes sem estardalhaço – há exceções claro. Mas é possível. Muitos times brasileiros também conseguem encontrar o equilíbrio, usando o espaço para publicidade sem desfigurar completamente a camisa.

Cabe aqui citar o exemplo recente do Racing de Avellaneda. O clube vendeu sua cota principal de patrocínio ao Banco Hipotecario Nacional da Argentina. Mas o banco optou por uma ação inédita: não vai colocar sua marca na camisa do time. Em vez disso, o banco faz uma campanha publicitária em que ressalta que devolveu a camisa do clube à torcida. E usa a imagem do time em outras ações. Isso, sim, é corajoso e genial.

Mostra, no mínimo, que outros caminhos são possíveis. E dá possibilidade aos torcedores de, com propriedade, chamarem a camiseta de seu clube de “manto sagrado”. Por aqui, o padrão cada vez mais é o “manto profanado”.

(*) Editor de Esporte da Folhaonline

3 comentários em “Pensata: Sobre mantos profanados

  1. concordo… mas na atual situação do meu papão eu até agradeço, pode colocar mais se tiver. essa preocupação é mais para frente, a diretoria tem que ter prioridade, que é subir de divisão.
    enquanto isso vou usando a camisa retro, que é muito bonita

  2. Talvez não Ricardo, pois, já viste por exemplo, uma entrevista coletiva dos treinadores e jogadores das equipes européias após a s partidas de suas principais competições (Liga dos Campeões, Premier League, Série A, La Liga Española e etc)? A quantidade de partocinadores que, necessariamente, não poluem o uniforme dos clubes é enorme. Essa tal necessidade de estampar inúmeras marcas nas camisas dos clubes (e agora não mais apenas nas camisas, pois já ocorre também nos calções, ombros, mangas, axilas (pqp!)… ou seja, os uniformes ficam ridículos e descaracterizados) é fruto de ações de marketing mal planejadas por clubes e empresas, e da situação falimentar das agremiações, reféns de cota de patrocínio dos jogos exibidos em tv aberta (Rede “Grobo”) e que, via de regra, são antecipadas para amortizarem suas dívidas. Já vistes como são as camisas das equips que disputam a Premier League, por exemplo? Têm apenas os tais patrocinadores “masters” (palavra na moda por aqui), o logo da Liga organizadora e o número e o nome do atleta nas costas, tudo padronizado. Pra quê? Pra vender o campeonato. E como a competição é organizadíssima, logo o preço a ser pago pela sua exibição deve valer o equivalente ao produto que é apresentado, simples. E como as cotas de tv são satisfatórias, não há a necessidade de tantos patrocinadores inundando camisas.
    Assim, enquanto nossos clubes não se organizarem, de fato, renegociarem as cotas de transmissão dos jogos (uma das mais baixas pagas aos clubes no mundo) será cada vez mais difícil. E uma vez organizados, e “vendendo” um campeonato com atrativos, se a Rede “Grobo” não quiser pagar o que for pedido, que se venda para outrass emissoras de tv, inclusive estrangeiras, pois os estrangeiros ainda, de modo geral, veneram o futebol brasileiro. Quem for podre que se quebre!

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