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Sherlock diferente para quem gosta de bom cinema

Por Rodrigo Fonseca

Com impressionantes US$ 140,6 milhões arrecadados em sete dias, “Sherlock Holmes”, que chega às telas brasileiras nesta sexta-feira, deixa no ar um incômodo com a relação ao desprezo de que Guy Ritchie foi vítima. A reboque de seu matrimônio com Madonna Louise Veronica Ciccone, o cineasta inglês, nascido em Hatfield, Hertfordshire, em 10 de setembro de 1968, viu sua carreira naufragar. Após uma estreia louvada por crítica e público na Europa e nos EUA com “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes” (1998) e “Snatch – Porcos e diamantes” (2000), Ritchie parecia transitar pelo mesmo canteiro de obras de Quentin Tarantino. Seu gênero era o gênero “bandido & bandido”, regado a um molho pop que, embora menos concentrado do que a molho especial do Royale With Cheese de Tarantino, esbanjava sabor. Só que aí veio o casório com Madonna, selado por um longa-metragem que o mundo se recusou a ver: “Destino insólito” (“Swept away”, de 2002). E por aí se perdeu Ritchie, até se reinventar pelas páginas da literatura de sir Arthur Conan Doyle (1859-1930).

Nessa reinvenção ele renasce como realizador.Potencializado pelo carisma indefectível de Robert Downey Jr. e de um soberbo Jude Law, “Sherlock Holmes” passa longe da fleuma estampada pela pena de Conan Doyle. Embora não peque pela sisudez, a prosa de Doyle dá suas rédeas ao suspense, secando adjetivos e advérbios em sua subserviência à elegância. Esse compromisso Ritchie não tem. Seu novo longa guarda o frenesi dos anteriores em sua montagem. O espetáculo cinematográfico que ele leva agora às telas não é um Sherlock clássico, é uma revisão autoral de uma Inglaterra progressiva, suja, mecanizada. Ritchie se firma à direção buscando a compreensão da psicologia de Sherlock, que transita pela gaitice, graças ao charme de Downey Jr, mas não se basta nela. Aproveitando uma leva de diálogos obedientes à ironia, Ritchie explora a excentricidade do personagem que mais vezes – segundo o Guinness – teve adaptações para o cinema e para a TV.

Mais do que apresentar a resolução de uma trama supostamente ligada à magia negra, Ritchie tem o cuidado de dissecar a mente genial que é capaz de interpretar o mundo a partir de relações matemáticas de causalidade. Fartas de adrenalina, as sequências de luta em que Sherlock calcula seus golpes a partir de equações de físicas e biológicas expõem a estrutura narrativa que Ritchie optou por seguir a partir de sua montagem. Filmada quase inteiramente em Londres, com poucas locações em Williamsburg, Brooklyn, a produção foi montada por James Herbert (de “Rock’n’Rolla”) de modo a reproduzir a mecânica reflexiva de Sherlock. Vivido com a picardia de um Downey Jr. capaz de encorpar sua expressão de angústia filme a filme, o detetive é lógica cartesiana pura. Cada ação gera uma reação que pode ser prevista com números, teses,O desenho de edição estruturado por Herbert, sob a égide de Ritchie, respeita essa maneira de pensar de Sherlock, expressando-a com idas, vindas e picotes, mais tarde esmiuçados de maneira a explicar ao espectador como o herói chegou às conclusões que o leveram à vitória. Essa dinâmica é fiel à filmografia de Ritchie: desde os malandros de “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes”, sua linguagem trabalha com reiterações e aliterações (cenas repetidas para gerar estilo).

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