Coluna: Orgulho e preconceito

Parece incrível hoje, mas o futebol feminino já foi alvo de execração pública no Brasil, por parte dos torcedores e até dos cronistas. E nem faz tanto tempo assim. João Saldanha, talvez o mais importante jornalista esportivo do país em sua época, era crítico mordaz da prática. Achava incompatível com o chamado esporte bretão.
Nos anos 70, sempre que era instado a opinar sobre o tema, Saldanha trovejava: “Só se a Adidas se associar com a De Millus para inventar novo uniforme”. Ranheta, rápido no gatilho, João Sem Medo não baixava a guarda nem quando lembrado que existia vôlei feminino, atletismo feminino, natação feminina e até luta-livre feminina. “O título mundial de boxe, categoria dos pesos-pesados, está vago. Por que uma mulher não se candidata?”, encerrava o papo.
Os tempos são outros e o futebol feminino já enche de ufanismo os pachecos mais deslumbrados. E não é para menos: Marta, a maior futebolista de todos os tempos, obteve ontem a consagração máxima no esporte. Arrebatou pela quarta vez consecutiva o troféu de melhor do mundo em eleição coordenada pela Fifa, façanha que nenhum marmanjo conseguiu desde que a premiação foi instituída.
Ao contrário da modalidade masculina, contam-se nos dedos de uma mão atletas realmente excepcionais entre as mulheres. Donde se pode concluir que, jovem ainda, Marta tem tudo para encher uma prateleira de troféus da Fifa. Caso mantenha o nível atual, construindo jogadas com talento assombroso e fazendo muitos gols, vai ganhar sempre.
Desconfio até que logo será inventado um troféu tipo hors-concours exclusivamente para ela.
 
 
O curioso é que, apesar dos troféus e medalhas, distinções e aplausos, o futebol feminino continua a ser um primo enjeitado no Brasil. Todo mundo acha bonito e se comove quando Marta brilha no palco da Fifa, mas a verdade é que o preconceito continua a minar as chances da categoria no país dos boleiros.
Esforços discretos têm sido feitos para tirar a modalidade do gueto, mas as dificuldades ainda são imensas. O Santos, campeão da Libertadores, time de Marta e Cristiane, é o primeiro dos grandes clubes a demonstrar real interesse pela atividade, investindo em contratações e formação de jogadoras.
A CBF, que vive prometendo apoio e subsídios, só lembra de Marta e suas companheiras quando o time levanta uma taça ou ganha medalha em Olimpíada. Depois, a modalidade mergulha de novo na zona de sombra, esquecida por tudo e todos.
A salvação pode vir do exemplo norte-americano, onde o esporte já é o segundo mais praticado nos colégios das cidades de médio porte. Lá, as barreiras do preconceito caíram por terra quando a modalidade virou febre entre as crianças, que constituem a base da pirâmide de qualquer esporte.  
  
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 22)

13 comentários em “Coluna: Orgulho e preconceito

  1. Já tornei publico meu reconhecimento pelo João Saldanha. Agora ouso discordar quanto ao galardao de maior cronista. Credito-lhe o de comentarista, em seu tempo. Saldanha conviveu com Mário Filho, Nelson Rodrigues e José Lins do Rego e com certeza os reconheceu maiores. É de se estabalecer a linha divisória entre comentarista e cronista. Gerson, voce exerce as duas atividades e sabe a diferença entre elas. Aliás, cobro-lhe agora, do cronista, maior produção.

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  2. Tavernard, J. Saldanha para mim era um “bom” cronista ,que simplesmente virou técnico da Seleção Brasileira. Nao tinha papas na lingua, mordaz e direto no que queria falar. davas bicas seguras na ditadura e saia fumando tranquilo pelas ruas..sem medo algum.

    Algumas coisas do homi

    João Saldanha: “De uma vez por todas para você! (em tom irritado). Afirmei e reafirmei e outras fontes metidas no meio também. Claro: na época fui convocado para a seleção brasileira no governo Costa e Silva. E Costa e Silva, estranhamente, morreu no meio do caminho. O governo mudou. Houve uma série de modificações na cúpula. E entrou o governo Médici – que, como precisava de uma frente bem ampla, resolveu usar a seleção, como vários governos usam até hoje. Inclusive o governo Figueiredo usa a seleção.

    SOBRE MILICOS

    O presidente … Aliás, não chamo de presidente da República porque costumo chamar de presidentes os que foram eleitos; não os usurpadores do poder. Então, o usurpador do poder naquele momento era o senhor Médici – que desejava popularidade e quis fazer popularidade através da seleção. Não era um bom caminho. Eu não estava de acordo. Nós éramos apenas um time de futebol. Mais nada!

    Saldanha: “O futebol é um ramo da arte popular. O Brasil é um país eminentemente pobre. Para o futebol, basta uma bola. O menino descalço pode jogar. Uma rua, uma bola de pano ou de borracha, uma bola qualquer e pronto: o menino joga. Como esporte de pobre, é evidente que o futebol tem uma transa bem maior com o Brasil do que com a Dinamarca … É só. É uma expressão da arte popular. Todo mundo tem necessidade de expandir a vocação artística em qualquer coisa. Há cantor de banheiro às dúzias e jogador de futebol aos milhões. Poucos, entretanto, conseguem atingir o estrelato”.

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  3. Gerson, so nao concordo em dizer que a Martae a melhor de todos os temos. Assim como Pele foi o maior, no feminino, a americana Mia Hamm, ja aposentada, foi a Pele de saias. Marta e, no maximo, a segunda maior – seria a Garrincha, ja que Maradona, pra mim, foi inferior, entre outros, a Zico e a Rivelino, sem contar Zizinho, Didi etc.

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  4. Gérson, antes de tudo desejo um feliz natal a você e a todos os colaboradores do blog. Quanto a salvação do futebol feminino passar pelo exemplo americano é preciso lembrarmos que lá ocorreu o seguinte: Os homens sempre praticaram o chamado FUTEBOL AMERICANO e soccer(como eles chamam o nosso futebol) era considerado esporte de mulher.E isso levou a formação de grandes equipes americanas conquistando por várias vezes a hegemonia do futebol feminino. O exemplo do esporte nas escolas é sem dúvida nenhuma, a melhor forma de descobrir talentos para formação de equipes competitivas. Por lá, o preconceito ajudou o futebol feminino e por aqui …é o que você muito bem escreveu em sua coluna.

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  5. Haroldo Lisboa. Ao transcrever trechos do Saldanha voce demonstra a preferencia pelo estilo e pela posição política do autor. Opto pela segunda virtude. Ao estilo, prefiro o do Zè Lins esrevendo sôbre o Maraca de 195O :
    “Ví um povo de cabeça baixa, de lagrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio como se voltasse do enterro de um pais muito amado. Ví um povo derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu no coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzidos a uma pobre cinza de fogo apagado. E, de repente, chegou-me a decepção maior, a ideia fixa que se grudou na minha cabeça, a idéia de que eramos mesmo um povo sem sorte … etc….A vil tristeza de Camoes, a vil tristeza dos que nada tem a esperar, seria assim o alimento podre dos nossos corações. “

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  6. TENHO ORGULHO DE SER DO PARÁ, PORTANTO:

    ELEVO MERECIDAS HOMENAGENS AOS VERDADEIROS GUERREIROS, JAIME BASTOS e GRIMUALDO SOARES (In Memorian).

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  7. Excelente escolha, amigo Tavernard. Apesar de fã do estilo de Saldanha, também aprecio a erudição do grande Lins.

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  8. Bem, amigo Jorge, se a Marta não é a melhor, quem estaria acima dela no ranking? Hamm, sinceramente, pelo que vi jogar, não chega nem perto do talento e dos recursos técnicos que a Marta tem. Hamm era, acima de tudo, força e velocidade. Jamais conseguia dar um drible. Teve o mérito de aparecer antes, quando o futebol feminino ainda engatinhava. Mas não cabe o paralelo com Pelé.

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  9. Muito bem lembrado, Harold. João era firme nas palavras, meio folclórico no jeito de levar a vida, mas foi uma grande figura humana.

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  10. Caro Tavernard,
    Quando cito o Saldanha como cronista esportivo estou utilizando o termo que generaliza os que militam na imprensa esportiva. Não estou fazendo referência aos estilos crônica x comentário. Obviamente, os irmãos Nelson e Mário foram muito mais cronistas no sentido exato do termo.
    Quanto à sua convocação, admito que nem sempre é possível equilibrar as duas coisas, em função das necessidades factuais. Mas, sempre que possível, enveredo pelo terreno da crônica, aparentemente mais sossegado, mas em termos de estilo bem mais difícil de trilhar.

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  11. O Jaime Bastos, conhecido como “homem do neca-neca” era tão somente um excelente e estiloso locutor de futebol. Uma espécie de Sílvio Luís (mais educado e culto é verdade) do rádio paraense. O Grimoaldo, um comentarista da velha escola do rádio, e só. Uma espécie de Ilmar Nunes do rádio, do tipo “futebol é uma caixinha de surpresas” etc. Mário Filho, Nélson Rodrigues e Lins do Rego, eram cronistas excelentes pelo fato de trafegarem com tranqüilidade em mares literários. Daí, o estilo, a preciosidade no trato ao vernáculo e a coerência argumentativa com doses poéticas na relação com a prosa. Textos falados e escritos que denotavam uma espécie de prosódia esportiva enaltecedora da farsa e da tragédia nas cíclicas batalhas de pelejas calendas. Esse estilo fez falta às tradições esportivas do pós- 50/60, mesmo entre radialistas. No Pará, digamos Edir Proença foi a expressão desse estilo (nome corretamente homenageado ao nosso velho Mangueirão e que governos ignorantes de plantão de triste memória preferiram substituir por Estádio Olímpico do Pará). É preciso uma certa dose de conhecimento da linda história do rádio paraense, da “mais antiga” à “poderosa”, antes de evocar referências. Cada qual com seu quinhão, pois, conforme Buffon, ” o estilo é o homem”.

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  12. TENHO ORGULHO DE SER DO PARÁ, PORTANTO:

    REELEVO MERECIDAS HOMENAGENS AOS VERDADEIROS GUERREIROS, JAIME BASTOS e GRIMOALDO SOARES (In Memorian).

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