Por André Forastieri
Quem me apresentou Alborghetti foi meu velho compadre Ronnie.
Roniquita andava em fase de vagabundear bastante no ap da Joaquim Eugênio de Lima e falou “meu, você já viu esse cara que bate com um porrete na mesa, grita que nem louco e baba no microfone?”
Quando vi não acreditei. Era melhor que a melhor televisão. Era hipnotizante. Não dava pra eu ver sempre porque passava tipo seis da tarde. Mas depois começou a reprisar na madruga.
Era de morrer de rir e de chorar, tanta desgraça e tanta papagaiada junta. Depois vieram Ratinho e tantas variações, mais pra cá, mais pra lá. Mas Alborghetti foi o primeiríssimo.
Porque antes caras como Gil Gomes e Afanásio tinham levado a narração policial radiofônica para a televisão. Mas eles eram sombrios, assustadores. Alborghetti era histriônico, um comediante nato. Fazia a gente rir dos crimes mais horrorosos do mundo.
Fora os epítetos que dedicada aos criminosos, de “sua capivara vagabunda” pra baixo. Fora as encaradas na câmera: “Eu vou meter a mão na sua cara, seu xarope cheira-cola! Eu vou quebrar a sua bunda, vou mandar entrar com a metranca e passar fogo!”
De jornalista não tinha nada. E é claro que não dá para assinar embaixo das nazistices de Alborghetti, “bandido bom é bandido morto” etc. Mas não dá pra não rir do cara chamando os câmeras de debilóides e ensinando a matar bandido…
Quando eu assisti Tropa de Elite, ficou uma memória lá me cutucando, e eu não sabia do quê. Às vezes tem isso – queremos lembrar de uma coisa e parece que a memória está trancada numa gaveta. Se você não encontra a chave, não consegue lembrar do que está ali no subconsciente, te provocando como uma coceirinha.
Hoje conectei: a pegada de Tropa de Elite – mezzo brucutu, mezzo parlapatão – é puro Alborghetti. Eu tinha esquecido que o cara existia. O cara precisou morrer para eu descobrir que ele estava na atividade! E na web, mais louco varrido que nunca. (DoR7)
Tive acesso a um vídeo do “Cadeia Alborghetti”, lá pelos idos de 90/91, através de meu grande chapa Mazinho (Lorimar Dionísio), jornalista goiano da melhor estirpe, que foi um dos baluartes da TV RBA em sua primeira fase, quando foi inaugurada pelo empresário Jair Bernardino. Trash ao extremo, o programa era divertidíssimo e politicamente dos mais incorretos. Mazinho se acabava de rir com as presepadas do apresentador-humorista (sim, porque mesmo involuntariamente, Alborghetti fazia graça). Tempos depois, quando o Ratinho surgiu, não pude deixar de observar traços bastante parecidos. Diria que o camundongo copiou descaradamente alguns trejeitos de Alborghetti, inclusive o uso daquele porrete. Quando idealizei e lancei o “Barra Pesada” na RBA, a 7 de fevereiro de 1992, muita gente sugeriu que se usasse um apresentador performático como Alborghetti. Discordei porque queria algo mais na linha revista eletrônica popular, com reportagens policiais inusitadas e muito jornalismo comunitário. Acabamos estreando com Luís Alberto, um locutor de estilo sério. Depois, experimentei Rui Bastos e Edson Matoso, até terminar fixando Ronaldo Porto, que lá está até hoje. Acho que foi a decisão correta.
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