O drama do velho caudilho

Por Maurício Stycer

Ele é, disparado, o melhor jogador uruguaio que já atuou no Brasil. Em sua fase áurea, entre o final dos anos 60 e o início dos 70, foi um dos maiores camisa 10 do mundo. Esteve em quatro Copas e escreveu seu nome na galeria de craques de dois dos principais times do continente, o Peñarol e o São Paulo. Num livro recém-lançado, “Tricolor Celeste”, o jornalista Luis Augusto Simon descreve a trajetória de quatro craques uruguaios que cruzaram a fronteira para se consagrar no São Paulo. Mas, ao lado de Pablo Forlán, Dario Pereyra e Diego Lugano, Pedro Virgilio Rocha Franchetti se destaca com facilidade. Nenhum mereceu, como ele, o elogio de Pelé, que o classificou como um dos cinco maiores jogadores do mundo.

A uma semana de completar 67 anos, Pedro Rocha vive um drama. Sofrendo de atrofia do mesencéfalo, um mal que afeta os seus movimentos e a fala, mas não a compreensão e a memória, o ex-jogador passa os dias em casa, na companhia da mulher, Mabel, fazendo fisioterapia e recebendo assistência médica. Seu filho Pedrinho Rocha, ex-jogador e hoje treinador de futebol, reclama da falta de ajuda do São Paulo. Diz que o clube deu algum apoio no início da doença do pai, mas depois ausentou-se. Pedro Rocha tem uma aposentadoria, diz o filho, que mal cobre os custos de exames que ele precisa fazer. 

Pedro Rocha nasceu em Salto, no Uruguai, em 3 de dezembro de 1942. Quando criança, tinha o apelido de “Tero” (como os uruguaios chamam o “quero-quero”) por causa das pernas longas e finas. Começou a atuar pelo Peñarol de Salto, mas em 1960, foi para Montevidéu, para jogar pelo “verdadeiro” Peñarol. Em uma década, sempre no Peñarol, ganhou sete campeonatos uruguaios, duas Libertadores e um Mundial (1966). O Peñarol foi, na década de 60, um dos dois ou três principais rivais do Santos na América do Sul.

Único jogador uruguaio a disputar quatro Copas do Mundo (1962, aos 19 anos, 1966, 1970 e 1974), Rocha fez 71 jogos e marcou 16 gols pela seleção. A sua Copa deveria ter sido a de 70. Estava no auge da forma e o Uruguai levou uma seleção altamente competitiva ao México. Mas sofreu uma lesão muscular aos 8 minutos da partida de estreia, contra Israel. E não jogou mais.

Rocha conta uma história ótima sobre a semifinal contra o Brasil. Ambas as seleções estavam em Guadalajara. O último treino dos uruguaios é acompanhado por jornalistas do mundo inteiro, inclusive do Brasil. O técnico Juan Hohberg manda Rocha para o campo. O craque treina cobranças de pênalti. “Não tinha condição de jogo. Ele fez isso só para pensarem que eu ia jogar”, conta. “Os jornalistas foram ao treino para saber se eu ia jogar”. O truque não ajudou, já que o Brasil venceu por 3 a 1.

 

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