Coluna: O vale-tudo das torcidas

A cena já é mais ou menos rotineira. Hordas de torcedores dirigiram-se, domingo, aos estádios de Rio e São Paulo com o objetivo declarado de brigar. Comboiados pela polícia, caminharam até a entrada dos estádios e, à saída, entraram em confronto com facções rivais, resultando num quadro de dezenas de feridos a faca, paus e pedras.
Em São Paulo, depois do jogo Corinthians x Cruzeiro, de uma torcida só, as tais “torcidas organizadas” mostraram sua verdadeira face. Perseguição nas ruas em torno do estádio do Pacaembu e troca de tiros num tumulto que envolveu, segundo a Polícia, 800 pessoas. Mais de 60 foram presas, duas baleadas. 
No Rio, na área de acesso ao estádio Engenhão, o quadro era digno de conflito iraquiano. Pessoas estendidas no chão, com cortes e sangramentos pelo corpo, numa ampliação medonha das encarniçadas lutas de vale-tudo do campeão paraense Lyoto Machida.
Como hoolligans tupiniquins, os baderneiros cariocas e paulistas tiveram seu domingo de glória e barbárie. Impunes e cada vez mais poderosos, valem-se da proteção policial forçada na chegada aos estádios e depois soltam os cachorros, passando a agredir quem atravessa seu caminho.
O espetáculo brutal não tem causa. É gratuito e sem rumo, como os cânticos de guerra e faixas que pregam o extermínio dos desafetos. Nenhuma diferença em relação aos métodos do narcotráfico e da máfia que intimida cidadãos nas grandes cidades.
O recrutamento e as práticas assemelham-se aos métodos de guerrilha urbana. A diferença capital é que não existe um inimigo declarado. Pode ser qualquer cidadão que dê o azar de passar por perto na hora de uma das muitas brigas em praça aberta.
Como saldo dessas cansativas jornadas de violência, que insistem em cercar as arenas esportivas, há um crescente êxodo dos verdadeiros torcedores. No Rio, menos de 23 mil torcedores compareceram ao clássico Botafogo x Flamengo, cuja expectativa era de 44 mil pagantes.
O mais triste é que aproximadamente 26 mil ingressos foram vendidos, mas quase três mil torcedores preferiram não comparecer ao estádio. Por medo. Confirma-se a antiga previsão: os inimigos do futebol estão, aos poucos, vencendo a guerra.
 
 
Números que fazem pensar. São Paulo pode repetir em 2010 o recorde de participantes numa edição de Campeonato Brasileiro – 40%. Em 1990, 8 dos 20 clubes da Série A eram paulistas. No ano que vem isso poderá se repetir caso os seis times da Primeira Divisão de 2009 permaneçam na elite e Guarani e Portuguesa fiquem no G4 da Série B. Nenhum outro Estado conseguiu até hoje tamanho domínio da principal divisão do futebol brasileiro. 

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 27)

7 comentários em “Coluna: O vale-tudo das torcidas

  1. “26 mil ingressos foram vendidos, mas quase três mil torcedores preferiram não comparecer ao estádio.”

    isso eh cambista, gerson.

  2. O futebol brasileiro padece na mão da bandidagem. Para se resolver esse problema é preciso meter o dedo na ferida. Para acabar com esses absurdos é necessária uma reformulação geral. O torcedor comum, que felizmente é maioria, é refém de bandidos uniformizados (as tais “organizadas”) e outros bandidos engravatados (nossos cartolas). Se pararmos para pensar, aqui no Pará nem engravatados são: uns usam uns chapéus cafonas e outros gravatinhas borboletas que fariam Cauby Peixoto soar chique. Mas isso é outro papo.
    Enquanto nosso futebol for dominado por essa cartolagem leniente com a violência, nossos clubes permanecerão na pindaíba. O que aconteceu no Engenhão é a prova concreta disto. 20 mil ingressos encalhados e um prejuízo na ordem de mais de meio milhão de Reais. Por que? Ora, a cartolagem criou (e continua criando) essa bandidagem em seu seio, à base de muita mordomia. Torcedor uniformizado costuma ter ingresso grátis (no pior das hipóteses, meia-entrada), viagens para outros Estados bancadas por diretores dos clubes e outras mordomia que o torcedor comum (eu, por exemplo) não sonha em ter. Na verdade, o torcedor comum não quer mordomia. Ele se contenta em ajudar seu clube. E gostaria de apenas uma contra-partida: ter seu clube de coração administrado honesta e dignamente.
    * Falando dos ingressos encalhados. Havia público para eles. Imagine o seguinte, caro Gerson: o gerente de vendas de uma empresa de refrigerantes. O cara é designado para comandar uma ação de vendas em um determinado evento. Neste evento é certo que ele venda 50 mil latinhas da bebida. Ao final do evento, o tal gerente volta para o depósito com 25 mil latinhas. O que aconteceria? A demissão seria automática e justa. Por que no futebol não poderia acontecer o mesmo? É para refletir.
    ** Nossa cartolagem, aqui do Pará, consegue fazer pior do que isso. No domingo escutei uma entrevista na rádio com o tacanho LOP. Quando o “gigante” terminou de falar senti um frio na barriga. 2010 será muito difícil para nós, fiel bicolor.
    *** Proponho a todos deste espaço que façamos uma homenagem simbólica e virtual para nosso futebol. Seria na próxima segunda feira. 2 de Novembro. Dia de Finados. A data mais apropriada possível.

  3. Matheus, concordo quando você contextualizando às vendas de latinha, diz: a demissão seria automática. Por outro lado discordo em ser esta demissão justa, já que variáveis poderiam interferir no processo de venda.
    Sobre o domínio de quantidades de clubes paulistas nos campeonatos nacionais, este é o motivo de tanto desejo de muitos (simpatizantes pelos cariocas, principalmente) quererem o expurgo do sistema de pontos corridos. Com justificativas frágeis, diante do óbvio.

  4. Caro Cézar, minha situação hipotética foi baseada na (in)competência e no histórico da cartolagem paraense. É claro que se o sucesso das vendas fosse frustrado por um fator extraordinário, o gerente em questão não deveria ser penalizado. Mas, como estamos falando de nossos cartolas, o encalhe das latinhas teria sido causado por um motivo bem prosaico: o dito gerente “esquecer” de colocar as latinhas para gelar, por exemplo. Se o promotor das vendas fosse AK ou LOP isso certamente aconteceria. Se fosse o Coronel, a coisa mudaria de figura. As latinhas estariam com o prazo de validade vencida…

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