Coluna: O preço da trapaça

Até anteontem não se podia fazer juízo de valor sobre as denúncias de armação no GP de Cingapura. Tudo era especulação. A partir de ontem, com a divulgação do depoimento de Nelsinho Piquet, é possível concluir que o brasileiro foi protagonista de uma inédita (pelo que se sabe) armação numa corrida de automóvel. Ao mesmo tempo, é lícito supor que a carreira do jovem piloto está moralmente encerrada.
Nelsinho Piquet, herdeiro do grande Nelson, está enredado até os fios do cabelo numa história quase cinematográfica sobre marmelada nas pistas para beneficiar sua escuderia. Mal comparando, comportou-se como um atrapalhado Dick Vigarista da Fórmula 1, apelido que antes se aplicava ao alemão Michael Schumacher.
Pior: Nelsinho pareceu movido por um impulso oportunista, acreditando que iria garantir vaga vitalícia na Renault, revelando-se acima de tudo um ingênuo. Depois que participou da trama e se viu ludibriado pelos cartolas da escuderia, Flavio Briatore à frente, resolveu pôr a boca no mundo. Novamente externou um conhecimento raso de como as coisas funcionam no mundo da F-1 – e na vida. Sua atitude permite desconfiar que, caso tivesse sido prestigiado na equipe, não denunciaria a tramóia.
Surpreende que o piloto não tenha aprendido nada com o pai, um celebrado ás do automobilismo, tricampeão do mundo, com comportamento irretocável em relação às regras do esporte. Pode-se até questionar o temperamento de Nelson Piquet, seu jeito particular de vociferar contra colegas e patrões, mas ninguém pode contestar sua vitoriosa folha de serviços prestados ao esporte da velocidade.
Acima de tudo, Piquet pai foi um vencedor, incluindo-se no rol dos cinco maiores da F-1 em todos os tempos, a partir das conquistas e recordes ao longo de duas décadas de carreira. Para alguns, como este escriba baionense, foi simplesmente o maior entre todos, galardão que também lhe é conferido por alguns dos mais respeitados analistas da categoria.
Pois a revelação da trapaça de Nelsinho soa como afronta ao passado do pai. Pela ordem natural das coisas, filhos seguem os exemplos paternos. Quando algo sai errado com um descendente direto é automática a associação com quem o inspirou e, sob esse aspecto, Nelsão sai também chamuscado do farsesco e vergonhoso imbróglio. De todo modo, sob qualquer ângulo, um capítulo triste para a história do esporte. 
 
 
Espera-se que a FIA, entidade que controla a F-1, seja rigorosa em relação a Nelsinho, mas não perca de vista a imensa responsabilidade da Renault, grande beneficiária da marmelada, ao lado do espanhol Fernando Alonso, vencedor daquela corrida. Aliás, há dois anos, Alonso e Lewis Hamilton beneficiaram-se de espionagem industrial praticada pela McLaren. Ambos safaram-se olimpicamente. Como, antes disso, pilotos consagrados como Ayrton Senna, Alain Prost e Michael Schumacher também escaparam impunemente de atitudes desportivas praticadas na pista.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 11)

2 comentários em “Coluna: O preço da trapaça

  1. Grande Gerson…em um programa jornalistico pela manhã, a maioria dos pilotos disseram que só se manifestariam após a conclusao das investigações. O nosso ás da mooca, rs, disse se isso aconteceu, teria sido falta de esportividade do Nelsinho ..ha ha ha …..só rindo Gerson…eu fiquei a perguntar: e qndo ele, Rubens abriu para o Schummi nao seria falta desportiva tambem ? he he he he …

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