Tribuna do torcedor

Lendo sua coluna no Bola deste domingo, vi(li) o senhor relatar algo que estava engatado na garganta. O senhor o fez com certa ponderação sem desagradar e milindrar a gregos e troianos na opinião a respeito de algo tão polêmico como a religião  e a sua expressão equivocada por alguns nas praças de desportos, nos mostra que na mídia ainda existe sobriedade crítica na expressão e discernimento.
O senhor o fez de forma sutil, mas expressou a indignação de tantos ao ver maculada a sua fé e devoção. Quando o senhor diz que “o Todo Poderoso reserva o seu tempo a coisas mais importantes” creio eu que isto é fato. Nos jogos do Paissandu um cidadão adentra os gramados ostentando a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, carregando como se fosse um estandarte correndo no gramado, o que ele carrega como se fosse um apenas um troféu ou um talismã para dar sorte é o simbolo da devoção de milhares de pessoas não mais recepcionado por cânticos, mas em meio a toda sorte de palavrões e impropérios por parte daqueles que estão nas arquibancadas para um lazer, movidos por  uma paixão que as vezes é tão feroz  que o mais importante é ver o massacre do adversário.
No jogo do Paissandu e Sampaio Corrêa, dava para perceber que o andor queria prevalecer sobre a imagem. Ali não é lugar para esse tipo de coisa, esta ação equivocada do que seja a fé, ridicularizada por um ato de impiedade (impiedade = falta de respeito às coisas consagradas) àquilo que é sacro.
Que partido tomaria Deus ou os santos numa peleja futebolística, que posição tomaria Nossa Senhora de Nazaré diante de um clássico Remo e Paissandu? Em primeiro plano, Deus não faz acepção de pessoas. É que está escrito nas sagradas escrituras.
Existe tempo e lugar para tudo, disse Salomão. As evidências falam que um campo de futebol no desenrolar de uma competição não é lugar para tal. Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
Que Deus te ilumine e não te cales diante da impiedade.

José Almeida

Botafogo, 20 anos depois

Um título que esperou 21 anos pra acontecer num 21 de junho, o gol saiu aos 12 minutos (21 invertido) do segundo tempo, o Rio registrava 21 graus naquela hora e o cruzamento foi de Mazolinha (14) para Maurício (7). Coisas que só ocorrem com o Botafogo. Em homenagem a essa data histórica, um video da matéria do botafoguense Renato Machado para a Globo.

Desde que o samba é samba

Religião é tema sempre delicado e o bom senso recomenda que se respeite sempre a convicção de cada um, mas algumas entrevistas pós-jogo beiram o paroxismo catequético. Depois da categórica vitória sobre o S. Paulo, no Morumbi, na última quinta-feira, o goleiro cruzeirense Fábio abriu mão de comentar a parte técnica da partida e caprichou no tom de pregação. Bacana e inspirador, pelo aspecto da crença pessoal. Inadequado e forçado, do ponto de vista esportivo.
“Deus é fiel, toda glória a Ele. Temos que agradecer por ter iluminado o nosso time, nos presenteando com essa maravilhosa vitória”, começou, com o sorriso próprio dos beatos. “Glória a Deus pela classificação, é a Ele que devemos glorificar e blá-blá…”, prosseguiu nesse tom monocórdio até o repórter finalmente desistir da entrevista.
Tudo muito bem, a fé move montanhas e a glorificação do Altíssimo é sempre justa, mas não deixa de ter um quê de cruel maniqueísmo o conceito de que Deus só age em favor dos vencedores, pouco se lixando para a sorte dos derrotados.
Fiquei a imaginar, de imediato, a situação dos atletas de Cristo do S. Paulo ao ouvirem as palavras fervorosas de Fábio. Afinal, por que cargas d’água justamente no prélio do Morumbi o supremo regente do Universo decidiu interceder em prol dos cruzeirenses? Será que os são-paulinos rezaram menos ou não fizeram por merecer o triunfo?
Continuo a crer, piamente, que o Todo-Poderoso reserva seu tempo a missões mais importantes que uma partida de futebol. Levando em conta a quantidade de palavrões, ofensas e agressões físicas disparados ao longo dos 90 minutos, desconfio que seu interesse pela atividade boleira é quase zero. No alentado cardápio dos esportes deve preferir o golfe, os saltos ornamentais, a ginástica rítmica ou o sempre injustiçado badminton.
 
 
Entraram para a história – e o anedotário do futebol – as presepadas de Marcelinho Carioca, atleta de Cristo juramentado, envergando faixa na cabeça em louvor a Jesus quando defendia o Corinthians. Era a bola rolar e o crente se transmutava em capeta, baixando o sarrafo nos adversários, cuspindo e xingando deus e o mundo.
Seu único momento de contrição era antes das cobranças de falta. Sempre ajeitava a bola depois de um beijo santificado, seguido de um olhar rumo aos céus. Quando calhava de a bola entrar, derramava-se em tributos ao Senhor. Quando perdia, saía querendo briga ou pespegando desaforos contra a arbitragem.
Recentemente, houve outro exemplo ululante de falsa beatice. O árbitro Edilson Pereira de Carvalho não iniciava um jogo sem antes benzer-se todo, dos pés à cabeça, elevar a vista em busca de proteção divina e beijar uma santinha que trazia no bolso. A torcida nem desconfiava que aquela benzeção toda era só potoca.
Descobriu-se, tempos depois, que Carvalho era árbitro de esquema e aceitava suborno para arranjar resultados. Pensando bem, o ritual talvez tivesse um motivo: pedir a Deus para não ser pego em flagrante.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 21)