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A indústria do engodo

Poucas coisas me incomodam tanto em futebol quanto o embuste, a farsa ou mesmo a inadequação que conduz a enganos desastrosos. Os arquivos dos jornais estão repletos de histórias de falsos craques e projetos de gênios que se desmancharam pelo caminho. Para cada Zico, Romário, Tostão, Maradona ou Cruyff existem 400 picaretas que ocupam espaço indevidamente na mídia e iludem multidões de torcedores.
Em suma, de enganadores o futebol vive cheio. A boa notícia é que ninguém engana por muito tempo. Há poucos dias, saiu no noticiário a nova aventura futebolística de Denílson, o driblador inútil, endeusado pela mistificação calculada de Galvão Bueno e assemelhados.
Imagine o montante de dinheiro – por centimetragem de jornais, minutos de TV e espaço virtual na web – desperdiçado com o risonho ex-ponta por conta das avaliações equivocadas de seus primeiros observadores.
Foi mais ou menos o que aconteceu com o volante Amaral, folclórico e simpaticíssimo. Não jogava nada, matava de canela e mal conseguia executar um arremesso lateral. Um bonde. Pois Zagallo, o papa da auto-promoção, usou toda a sua verborragia para inventar uma função exclusiva para o simplório Amaral: o número “1”, híbrido de volante-zagueiro-médio, reinvenção do líbero e novo messias do futebol brasileiro.
Vários pascácios caíram na lorota zagalliana e Amaral experimentou status de jogador utilitário – do “tipo que não aparece para a torcida, mas é fundamental taticamente” -, não só para o Palmeiras: Amaral foi titular inquestionável da Seleção Brasileira! E por lá ficou até o dia em que o Benfica, mal informado, resolveu contratá-lo. Portugal ganhou um bonde para chamar de seu e o Brasil se viu livre de uma fraude.
Mais ou menos no mesmo período, outro perna-de-pau despontava: o becão Célio Silva, de chute violentíssimo, que inspirou a Globo a promover um torneio para eleger o canhão mais poderoso do nosso futebol. Óbvio que Célio papou o troféu, como também levou um drible desmoralizante de um moleque norueguês em amistoso disputado em Oslo.
A mesma safra revelou outros engodos, como Odvan, Beto Cachaça etc. E o pior é que, por obra do acaso ou interferência divina, alguns lograram a façanha de conquistar até título mundial, caso de Vampeta e Viola.
 
 
Diga-se que, em meio a tantos jogadores toscos, surgem também os supervalorizados. São caras habilidosos, como Denílson, que com o tempo frustram todas as expectativas. Lembro de Caio, que rodou o mundo, sempre em bons times, sem explodir jamais. Sávio era a oitava maravilha do mundo na Gávea e chegou a integrar um certo “ataque dos sonhos”, passou pelo Real e também sucumbiu à superexposição.
E, agora, há Keirrison. Cantado em prosa e verso como futuro astro mundial, nos sonhos delirantes de seu empresário, afunda sob o peso das cobranças. Não faz mais gols e, suprema humilhação, periga virar reserva de Obina no Palmeiras. Keirrison é um atacante normal. Pode vir a ser grande. Mas, por ora, é mais um produto da bolha especulativa que alimenta a engrenagem da indústria do futebol.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 12/06)

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